novembro 25, 2003

74. "Luis", «Diário»

Luis (Sublinhar), evocando Dostoievsky, produz uma pequena reflexão sobre a escrita nos blogues e sua analogia com um diário. [dica de icosaedro]

Autor: "Luis"
Título: «Diário»
Meio/Local: Blogue, Sublinhar
Data: 20 de Novembro de 2003
Tema: Weblogs & Blogging.
Palavras-Chave: blog, escrever.
Língua: Português
País de Origem: Portugal

Diário

Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente."
Ou seja, algo muito parecido com um blog.

Mas três meses depois ele escreve:
"Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho 10 ou 15 assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiao ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público..."

Eu, ao escrever aqui, sinto muitas vezes essa mesma artificialidade... essa mesma impossibilidade de escrever tudo...
e espero, ingenuamente, que os silêncios possam dizer o que calo... mas isso, sei-o bem, é um desejo condenado ao fracasso.

Publicado por socioblogue em 01:28 AM | Comentários (44)

novembro 24, 2003

73. Francisco José Viegas, «O Que Falta à Blogosfera»

Há alguns dias Paulo Querido publicou um texto intitulado «O Que Falta à Blogosfera». Agora, Francisco José Viegas (Aviz) responde a esse texto.

Autor: Francisco José Viegas
Título: «O Que Falta à Blogosfera»
Meio/Local: Blogue, Aviz
Data: 23 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera.
Língua: Português
País de Origem: Portugal

O Que Falta à Blogosfera

O Paulo Querido publicou no seu blog um bom texto com este título. Trata, no essencial, de questões que já preocuparam por diversas vezes os blogs mais atentos ao «fenómeno» (hoje já não é fenómeno nenhum) — e é muito pertinente. Aborda, também, o «efeito pernicioso» dos blogs «mais mediáticos» — o Abrupto, o Dicionário do Diabo ou o Aviz, por exemplo — nomeadamente o seu compreensível efeito totalitário (a expressão é minha, não do Paulo — mas acho adequada à circunstância). Ora, há aí um problema que não tem a ver com o peso de um blog, com a sua influência ou a sua presença permanente, mas com a forma como é feito. Só posso falar por mim, até porque o blog é só meu. Comecei o Aviz como toda a gente: para experimentar e para ver se era possível dizer alguma coisa. Acabou por ser um diário com poucas interrupções; nunca medi audiências e o assunto pouco me interessa; tem uma circulação que desconheço (uso o netcode.pt para fazer rastreio de «referências» e não para contar visitas); é «intimista» quando me apetece, confessional quando preciso, irritado quando acontece. Ainda no meu caso — o que é estritamente pessoal, portanto, oscilando nesta fronteira do semi-público — nem sequer o faço para escrever sobre coisas «que não cabem noutro lugar» ou para «fazer exercício». Faço-o enquanto houver blogosfera, e mais nada — e enquanto tiver tempo ou precisar de escrever sobre o que me apetecer, sem agenda, sem alguém a pedir-me satisfações. Esta questão da agenda reconheço que é importante, mas não me interessa para nada; continuo a dizer que escrevo sobre o que me apetece, quando posso (ou não posso evitar), sobretudo porque não tenho e nunca tive responsabilidades políticas, mas também não reinvindico nenhuma inimputabilidade política.
A blogosfera é uma comunidade disponível, muito aceitável culturalmente, e tenho aprendido bastante com ela. Se conhecemos pessoalmente os autores de blogs, sabemos que os seus defeitos e vastas virtudes continuam; dos outros, só conhecemos os textos e o mau carácter (que transparece sempre), o que é bastante. Como em todo o lado, essa disponibilidade afecta tanto os «blogs mais mediáticos» como os absolutamente anónimos graças a essa pequena mas graciosa circunstância de não haver controle sobre o que possam dizer uns dos outros, ao contrário da televisão ou dos jornais, por exemplo.
Não me agradaria nada ver os blogs (como estes, que leio) transformados em «órgãos de comunicação social» com o peso jornalístico que lhe é atribuído muitas vezes. Mas isso é com cada um. Confesso, aliás, que os blogs menos interessantes são os que estão permanentemente dependentes da agenda dos jornais — à esquerda e à direita. Não porque acabem a falar uns para os outros, coisa que é inevitável em tudo (e não me parece mal, pelo contrário; pelo menos fala-se para alguém), mas porque a mim me interessam menos. Quando escrevo que a mim me interessam menos, isso significa, também, que sou e sempre fui contra um «estatuto editorial» da blogosfera (já escrevi aqui sobre isso), contra a limitação dos temas, contra a limitação dos tons em que se escreve. A blogosfera agrada-me também por isso, por poder ser anárquica nessa matéria e ninguém poder impor ao Pacheco Pereira que não escreva sobre a luz, o equinócio ou a filatelia, ou ao Pedro Mexia que não escreva sobre bandas pop, actrizes bonitas ou fenomenologia, ou impor ao Náufrágios que só escreva sobre barcos encontrados no fundo do mar dos Açores, ou proibir o Jorge Marmelo de escrever sobre literatura brasileira. Ninguém pode obrigar o Joel Neto a comentar o Benfica, pedir ao Contra a Corrente que não seja de Évora, ou exigir ao João M. Fernandes que seja «politicamente certinho» e que não se diverta quando quer. É como pedir-me que não me divirta sinceramente com um dos blogs de que mais gosto (e que mais invejo pelo permanente sentido de humor), o dos Marretas, por exemplo, ou alguém irritar-se por o Tiago ser protestante e o Rua da Judiaria ser judeu. Se o Alberto Gonçalves, que geralmente escreve sobre política, quiser escrever sobre aqueles dois restaurantes fantásticos de Bragança e de Mogadouro, isso é mau? E se o Avatares de um Desejo, o A Aba de Heisenberg e o Klepsydra decidirem que durante uma semana só comentam futebol? Temos polícia à porta?
Daí que, embora não concorde com as posições políticas de muitos «blogs políticos», não estou para dar lições nem para ir, a correr, recebê-las. Aliás, uma das coisas boas da blogosfera é precisamente isso: o ar ridículo que toma logo quem aparece a dar lições, a vestir-se de sacerdote, a impor uma agenda ou — vamos lá... — a aborrecer-nos com a sua infinita presciência, quase sempre gritada com a impressão de que se ganhou uma grande batalha intelectual.
Ou seja: a blogosfera também me agrada porque ninguém pode impor silêncio seja a quem for, nem pode obrigar seja quem for a falar sobre aquilo que acha que devia ser matéria para pronunciamento.
Ora, apesar do «efeito pernicioso» dos «blogs mais mediáticos», reconheço que muitos textos que me comoveram, que chamaram a minha atenção por motivos sérios ou risíveis, vêm de blogs anónimos (ou, pelo menos, de pessoas que não conheço). São, como escrevi antes, relâmpagos que iluminam a paisagem. A paisagem, nós sabemos como é: tem os seus declives, os seus rios, as suas montanhas — mas os relâmpagos não são previsíveis como a paisagem. De vez em quando descubro um blog que tem aquela frase, ou que vê aquele pormenor. Como isto não é uma batalha letal, não digo que eles estão certos — digo só que me juntei a eles, que os juntei nas minhas leituras, que me comoveram de alguma maneira. O que me basta perfeitamente. Se quiser mais, vou à biblioteca.
O resto é como na vida em geral. Não gostam? A porta está aberta nos dois sentidos. Só está cá quem quer.

Publicado por socioblogue em 01:14 PM | Comentários (30)

novembro 16, 2003

71. Paulo Querido, «O Que Falta à Blogosfera»

Retomando um assunto qua já abordara num texto anterior, Paulo Querido [(o vento lá fora)] desenvolve alguns dos tópicos que aflorara previamente.

Autor: Paulo Querido
Título: «O Que Falta à Blogosfera»Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 15 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal

O que falta à blogosfera
Ao contrário do que se pensou e escreveu (eu também escrevi), a entrada do Abrupto e do Aviz para a blogosfera não trouxe afinal a emancipação dessa mesma blogosfera. É inegável que a veio enriquecer do ponto de vista qualitativo (trata-se de dois autores de bom nível), é inegável que mediatizou os blogs (o que também tem efeitos perversos, como agora se nota), aparentemente chamaram mais autores -- e digo aparentemente porque hoje tenho dúvidas sobre o que teria acontecido SEM eles.

Tais blogs "de referência" têm tido até sobretudo um efeito pernicioso sobre a blogsfera, sobre a rede, contribuindo para a "adormecer" e cristalizar (falo disso mais adiante). Sem qualquer tipo de desprimor para os respectivos autores, que prezo e admiro; o assunto não passa directamente por eles.

Ao contrário do que temos por adquirido, a sua vinda não foi o rastilho para a blogsfera se assumir como uma rede alternativa de informação e opinião. Na verdade, a blogsfera não existe: o que existe são pequenos, muito pequenos círculos de blogs que se referenciam uns aos outros horizontalmente, havendo muito poucos blogs de um círculo que sejam referenciados noutro, verticalmente. As excepções verticais contam-se pelos dedos: além do Abrupto, é o Pedro, o João e... hum? não me ocorre agora mais nenhum.

As razões disto são complexas e não se ficam pelos blogs. Há dois factores externos que MUITO contribuem para a não-existência de uma rede de informação/opinião em Português. Em duas palavras, são eles a absoluta e absurda ignorância dos media portugueses face às novas tecnologias de interligação digital e a ausência de um portal nacional de referenciação, como o Blogdex ou o Technorati.

[Os meus esforços no weblog.com.pt são claramente insuficientes: nem se faz por hobby, nem se faz sem recurso a programadores competentes (eu não sou programador, quanto mais competente), nem se faz sem uma estratégia pensada por uma equipa (recordo que o weblog.com.pt técnica e estrategicamente é... eu, uma só pessoa, manifestamente pouco para a ambição de um tal projecto, estou condenado a colocar as dúvidas ao espelho e a obter respostas de algum dos meus heterónimos... um processo fastidioso e frustrante).]

Um exemplo actual: os acontecimentos com os jornalistas portugueses em funções no Iraque. Se quisermos mergulhar no assunto temos de andar a vasculhar tanto os sites informativos como os blogs, um por um. Uma perda de tempo incompatível com os actuais ritmos de assimilação da realidade. Não há um centro nevrálgico onde me possa dirigir para ver logo o peso relativo do assunto -- que é imenso nestes dias, penso aliás que será o tema dominante na arena mediática global (Imprensa e blogs) desde sexta-feira passada até provavelmente domingo.

Mas como posso eu provar (ou desmentir) esta minha teoria? Não tenho ferramentas. Não há rede. Existem apenas pontos suspensos no espaço digital. Demasiados pontos para poderem, em tempo útil, ser verificados um por um. Não temos forma de avaliar que temas dominam essa mesma arena (excepto, naturalmente, a vasculhação manual, a consulta de centenas de páginas para apurar os links e depois redigir uma página sobre o tema; impensável). E nisso a blogosfera está atrasada. É por isso que digo que não há uma blogosfera: há um conjunto alargado de blogs mas não estão em rede.

Bastava que a TSF, o Público, a SIC e o DN (para citar apenas quatro) tivessem índices RSS/XML/RDF e que os blogueiros tivessem crescido um pouco tecnicamente (era a isso que me referia quando falava de amadurecimento no outro texto) para que, calmamente, com um único clique eu poder ter uma ideia muito clara do peso relativo do tema na actualidade informativa/opinativa de Portugal.

Voltando aos blogs "de referência" e aos seus efeitos perniciosos. Por um lado, cristalizaram o who's who. A par do Gato Fedorento, do Pipi e dos Marretas, dominam a lista dos inbound links. Um fenómeno já estudado, aliás. Neste momento há pessoas (a começar pelo autor do Technorati e passando por outros membros proeminentes da blogosphere) a pensar o assunto e em formas de quebrar o cristal permitindo o acesso de novos blogs aos tops.

Por outro, na ausência de contrapontos (como o sistema de avaliação em contínuo dos temas predominantes que já falei acima) a tendência dos leitores é para considerarem os "de referência" como autoridades opinativas em toda e qualquer matéria. A realidade é aquilo de que eles decidirem falar. O efeito disto nas massas -- e digo massas porque há evidentemente gente que não lê blogs da mesma forma que consome jornais e televisão, mas a maioria tem dos blogs essa visão estreita PRECISAMENTE POR CAUSA DO MEDIATISMO DOS BLOGS DE REFERÊNCIA -- é absolutamente contrário ao esperado (desejável?) de um meio dito democrático.

A democraticidade de acesso que os blogs nos trouxeram permite efectivamente a emissão de MAIS correntes de opinião do que as disponíveis na esfera mediática tout court (sem blogs, só Imprensa), onde não passam de três ou quatro em perfeita união com o espectro político-partidário e a este subordinadas. Na blogosfera há dezenas de correntes disponíveis.

Porém, e paradoxalmente, isto não veio impedir que continuemos por enquanto a viver uma ditadura opinativa reflexa na blogsfera. A ausência de circuitos que liguem os nós da rede obriga os leitores a dirigirem-se directamente aos nós -- e tendencialmente os nós proeminentes obtém mais visibilidade.

Próximos capítulos: a tentativa de construção de rede dos "de direita" e porque falhou quase rotundamente; o caso espanhol; os blogs de escritores.

PS: este texto (e as sequelas que hão-de vir) surge inspirado / encorajado pelos comentários suscitados pelo meu desabafo aqui. Outro texto recomendado para a compreensão do assunto é Blogs: o poder ao indivíduo, publicado inicialmente no Expresso.

Publicado por socioblogue em 05:07 AM | Comentários (3)

novembro 15, 2003

69. Paulo Querido, «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera»

Paulo Querido [(o vento lá fora)], acaba de escrever um texto onde se reporta ao "estado da nação" blogosférica. Para tal, faz uma comparação com a realidade norte-americana. O texto intitula-se «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera».

Autor: Paulo Querido
Título: «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera»
Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 14 de Novembro de 2003: 23:34
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal

Falta qualquer coisa à blogosfera

Dou uma volta pelos blogs que visito menos: a chamada blogosfera, que eu gosto de chamar umbigosfera. A voltinha pelas vacas sagradas, Mexia, Lomba, Pereira, Viegas, Barnabé, Esquerda etc, estão a ver?

Há semanas que não fazia a voltinha saloia. O pouco tempo que me sobra, tenho-o investido na blogosphere.

Conclusão da voltinha: o Mexia está, felizmente, cada vez mais na mesma (a dele, que é boa), o Lomba e o Barnabé picaram-se mutuamente,eu gosto sempre de uma boa polémica e esta é... boa, embora já tenha visto melhor de ambos [o picanço visto de fora], os outros está tudo cada vez mais na mesma. Quem leia o pelotão da frente fica um bocado naquela de que não existe pelotão de trás.

A blogosfera está cristalizada. O tempo parece ter parado em torno dos umbigos do costume. Quem leia, parece que não se passa mais nada, que não há blogues novos, entusiasmantes, ideias frescas, gente engraçada.

Já a blogosphere não. Mexe activamente. Nos EUA blogar é um bocado mais do que escrever. É manter um blog. É cuidar dele como quem cuida do vestuário. É estar a par. É fazer parte. É não perder a onda.

Acho que está a faltar à blogosfera gente mais interessada na ferramenta e mais disponível para colaborar na rede. Os blogs fazem (mais) sentido quando são uma rede. Só uma rede é uma coisa viva. Um conjunto de páginas, por muito bem escritas quer estejam, não constituem uma rede. Sem se interligarem estão mortas.

Mas isto sou eu que acho.

Publicado por socioblogue em 01:04 AM | Comentários (14)

novembro 05, 2003

68. Segismundo, «Um blog é»

"Segismundo", do Albergue dos Danados, produziu uma pequena entrada onde apresenta mais uma contribuição para uma definição daquilo que é um blog.

Autor: "Segismundo"
Título: «Um blog é»
Meio/Local: Blogue, Albergue dos Danados
Data: 30 de Outubro de 2003
Tema: Psico-Antropo-Sociologia do Blogging
Palavras-Chave: blog, solidão.
Língua: Português
País de Origem: Portugal

Um blog é

Um blog tende a ser um expositor de solidão. Pode ser uma solidão fingida, ensaiada, simulada, negada, mas é, sempre, uma solidão, uma solidão projectada, projectada para os outros, uma solidão publicitada. Reconhecida pelos outros, essa solidão como que se desintegra, sem, no entanto, se desintegrar de facto. Começa aqui a ilusão da comunidade. E muitos caem nela. Como quem cai numa rede. Porque é reticular e não comunitária a plataforma onde as solidões, expressas nos blogs, se encontram. O engano é uma constante vital.

Publicado por socioblogue em 10:30 AM | Comentários (309)

outubro 28, 2003

66. Bruno Sena Martins, «Os Blogues agonísticos»

Numa pequena nota intitulada "Os Blogues agonísticos", Bruno Sena Martins (Avatares de Um Desejo), um dos metabloggers mais empenhados e consistentes, preconiza a existência de uma "transição motivacional" em alguns bloggers mais antigos. Vale a pena ler.

AUTOR: Bruno Sena Martins
LOCAL: Blogue, Avatares de Um Desejo
DATA: 27 de Outubro de 2003

Os Blogues agonísticos

Nas reflexões que os bloggers mais antigos vão fazendo da sua actividade, noto uma transição motivacional. Explico. Ao princípio o gosto de Blogar era mormente expresso como estando associado ao desejo de feedback, de um correlato ao que se escreve e faz na arena pública, algo que na blogosfera é bem superior a outros espaços de comunicação que, inclusive, muitas vezes, atingem um público mais vasto. Ao fim de uns meses a ênfase parece ser dada à obrigação que o blogger criou para com os seus leitores, às expectativas criadas e ao desejo de não as desiludir. Chamo a isto de escrita agonística. (sublinhado original)

Publicado por socioblogue em 01:17 AM | Comentários (19)

outubro 21, 2003

64. Pedro Fonseca, «Os Blogues Agora em Livro» e «Erros e Imprecisões»

Pedro Fonseca, num artigo do jornal O Público (Suplemento Computadores, Edição nº 4960 de Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003) referiu-se ao livro «Blogs», de Paulo Querido e Luis Ene, em dois textos: «Os Blogues Agora em Livro» e «Erros e Imprecisões». Paulo Querido pegou no texto e promoveu um debate - que tem sido deveras animado - a propósito do livro no seu blogue, «(O Vento Lá Fora)». Vale a pena acompanhar.

AUTOR: Pedro Fonseca
LOCAL: Imprensa, O Público
DATA: 20 de Outubro de 2003

Os Blogues Agora em Livro: Editada a primeira obra sobre a blogosfera nacional
Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003

Pedro Fonseca

Foi lançado na passada semana o primeiro livro de autores nacionais sobre os blogues. "Blogs" foi escrito por Paulo Querido e Luís Ene, e editado pelo Centro Atlântico na sua colecção Sociedade da Informação. Querido é colaborador do "Expresso", autor e responsável pela comunidade de blogues em weblog.com.pt. Ene é autor e licenciado em Direito. Ambos têm blogues.

O livro aproveita a vaga de mediatismo e consequente interesse sobre os blogues nos últimos meses para falar da sua existência e emergência, explicar como criar um e entrevistar alguns dos envolvidos nos últimos meses neste movimento. Termina com uma lista de blogues nacionais, explicada e assumida como uma escolha pessoal dos autores, mas que se pretendem como "uma lista dos blogues mais representativos da blogosfera portuguesa, organizada por temas".

Ainda em termos de objectivos explicitados pela editora, o livro propõe-se "colmatar a deficiência de reflexão sobre os weblogs, traduzindo a sua linguagem, abordando-os numa perspectiva histórica e contextualizando o seu crescimento". Neste sentido, a proposta poderá defraudar os interessados mais antigos no fenómeno dos blogues, que aqui vão encontrar informação suficientemente disseminada ao longo dos últimos anos. Mas, para os mais recentes "bloggers" ou os interessados em criar um blogue, o livro apresenta-se como uma obra bastante pedagógica.

Após um prefácio onde se declara à partida que escrever "um livro sobre blogues é uma obra ingrata" porque "a blogosfera, o universo da edição pessoal, está em mutação constante", avança-se para algumas "perguntas de algibeira", tentando explicar o que são blogues e a blogosfera "em 10 minutos" (ou, dito de outra forma, em 10 questões).

Quando se entra finalmente na primeira parte, "Da teoria à prática", os autores explicam a diferença entre um blogue e uma página pessoal na Web, afirmando com alguma controvérsia que, apesar da existência do "primado do autor", "o antepassado em linha directa do weblog é o fórum" e que tanto estes como as listas de discussão foram "exterminadas pela revolução do Blogger". Ou seja, entre um espaço pessoal como um blogue e um espaço comunitário como os fóruns, o primeiro é uma comunidade por incorporar comentários públicos (o que nem todos fazem, nomeadamente alguns bastante conhecidos). Aliás, mais à frente, explica-se que dar ou não a possibilidade de existirem comentários a um texto num blogue "é uma opção do respectivo autor" e que, "mais importante que o propósito, um blogue tem autoria".

Os próprios autores acabam por reconhecer, relativamente à questão do jornalismo e dos blogues, que estes "são na essência uma ferramenta pessoal, individual".

A segunda parte, a mais pedagógica do livro - e onde os interessados em criar um blogue vão ter ajudas preciosas sobre como o fazer facilmente no Blogger.com (ou noutros editores, porque a informação é generalizada) -, termina com a menção de outros editores de blogues, nomeadamente o weblog.com.pt, meritória iniciativa do co-autor Paulo Querido mas que devia ter merecido uma nota (um "disclaimer", para usar o termo inglês) nesse sentido. Segue-se, na terceira parte, uma bem conseguida articulação de entrevistas - talvez a parte mais interessante ao dar voz própria aos autores de blogues a partir de perguntas consistentes.

Finalmente, o livro termina com a referida lista de blogues portugueses (e uns poucos internacionais), arrumados por áreas temáticas. O epílogo humorístico é apenas um "pequeno dicionário de inutilidades" sobre blogues. "Blogs" posiciona-se, assim, como o primeiro livro sobre esta "revolução", como lhe chamam os autores e, apesar de algumas falhas e erros (ver caixa), acaba por ser uma obra didáctica, recomendável a quem se interessa - ou quer vir a interessar-se - pelo assunto. A edição em papel custa 14,71 euros e a versão digital 7,36 euros (ver em http://www.centroatl.pt/titulos/si/blogs.php3 ).


Erros e Imprecisões
Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003

P.F.

À parte as discussões infindáveis sobre o que é um blogue, há erros factuais no livro - o que é pena. Por exemplo, que se teve de "esperar por 2003 para se ouvir falar pela primeira vez em blogosfera" em Portugal. Na apresentação do livro, um "blogger" nacional lembrou como guardou um recorte do semanário "Expresso" de 2002 sobre este assunto, que o levou posteriormente a criar o seu próprio blogue. No caso do Computadores, um dos primeiros textos sobre o assunto remonta a 29 de Julho de 2002, originado pela disponibilização de blogues no "Diário Digital" - uma comunidade de mais de 500 blogues nacionais que não merece qualquer referência no livro.

É igualmente excessivo generalizar que, "à escala mundial, é já do senso comum que a blogosfera se divide em dois períodos: o Antes de Raed e o Depois de Raed", referindo-se aqui o blogue criado por um habitante de Bagdad e actualizado antes - e, com alguma intermitência - durante a recente guerra no Iraque. Tal como não existe qualquer base séria para se referir que, em Portugal, o número de leitores quintuplicou ou que triplicou a quantidade de criadores de blogues após o surgimento do Abrupto, da autoria de Pacheco Pereira, em Maio deste ano.

Da mesma forma, é difícil basear a afirmação de ter sido a denúncia do Muito Mentiroso pelo Abrupto "o primeiro caso importante em que jornais e televisões andaram a reboque" dos blogues. Basta lembrar um caso anterior, em Junho, de vários médias (nacionais e estrangeiros) obrigados a desmentir, por pressão dos blogues, afirmações publicadas e atribuídas ao subsecretário da Defesa norte-americano Paul Wolfowitz sobre o interesse dos EUA na guerra do Iraque

Publicado por socioblogue em 09:41 PM | Comentários (25)

setembro 03, 2003

58. Os Canhotos, «Enxovalhanço Merecido?»

No Cruzes Canhoto foi publicada uma nota sobre a contra-blogomania: a moda de ser contra os blogues. O texto intitula-se «Enxovalhanço Merecido?».

Autor: Os Canhotos
Local: Blogue, Cruzes Canhoto
Data: 2 de Setembro de 2003

Enxovalhanço Merecido?

Depois da moda dos blogues, seguiu-se inevitavelmente a moda de ser contra os blogues (crédito ao Pedro Rolo Duarte por ser o primeiro). Esta tendência diverte-me e parece-me natural. Vindo principalmente de figuras institucionais, isto é, instaladas confortavelmente no sistema e sem vontade de mudar, estas críticas parecem-me muito bom sinal.
No entanto, nunca se devem afastar as críticas de ânimo leve pois contêm sempre uns pozinhos de verdade (do mesmo modo que nunca devem ser encaradas de modo bíblico).
Os blogues podem ser apenas vistos como uma linha aberta do bitaite, um confessionário público ou uma tertúlia entre amigos e não há nada de mal nisso nem quer dizer que estes blogues sejam maus. Há blogues óptimos a mandar bocas, blogues excelentes a abordar pequenas histórias do quotidiano pessoal e blogues interessantes a conversar com outros blogues.
Mas reduzir os blogues a isto é também condená-los ao efémero e ao grupal.
Os blogues podem ser também um excelente suporte para experiências literárias que à partida os editores nunca publicariam (1, 2, 3, 4) e, o ponto que mais me interessa, podem ser uma nova forma de media.
Fareed Zakaria, da Newsweek, fez a seguinte observação a propósito:

No mundo do jornalismo, a página web pessoal ("blog") foi saudada como o carrasco dos media tradicionais. No entanto tornou-se algo de muito diferente. Longe de substituir jornais e revistas, os melhores blogues -- e os melhores são muito bons -- tornaram-se guias dos media, apontando fontes invulgares e comentando notícias conhecidas. Tornaram-se os novos mediadores para o público informado. E, embora os criadores dos blogues se vejam como democratas radicais, são na realidade uma nova elite de Tocqueville.

Num mundo em que os media estão cada vez mais murdochizados (em Portugal, PTzados), isto é concentrados nas mãos do governo ou de dois ou três ricaços, com todo o défice de liberdade de expressão e ameaça democrática que isso implica, os blogues podem ser uma fonte excepcional de cruzamento e concentração de informação, de exploração de factos menos conhecidos e refutação de notícias dúbias. Em Portugal há, infelizmente, poucos sites deste género, há o Valete Fratres (de direita), os blogues do Paulo Gorjão e mais uns poucos. A maioria são americanos, como o Instapundit (de direita), o Indymedia (de esquerda), o Slashdot (informática), o Newsfilter (bizarro) e muitos outros. São estes dois géneros que tornam os blogues importantes e a ter em conta no futuro. A importância dos blogues notou-se no caso de Raed e agora no caso dos blogues iranianos. Por muitos artigos de jornal que se escrevam a maldizê-los. J

P.S. - As críticas à escrita ou superficialidades dos blogues têm o mesmo valor que as críticas à boçalidade nos telejornais e querem dizer apenas isto: que são medias democratizados e acessíveis a todos e não dão apenas voz a alguns "esclarecidos". O resto são questões socioculturais.

Publicado por socioblogue em 11:32 AM | Comentários (27)

setembro 02, 2003

56. José Medeiros Ferreira, «Blogue-Notas»

Numa crónica que titulou de Blogue-Notas, publicada hoje no Diário de Notícias, o historiador José Medeiros Ferreira dedica alguma atenção ao mundo dos blogues.

Autor: José Medeiros Ferreira
Local: Imprensa, Diário de Notícias
Data: 2 de Setembro de 2003

Blogue-Notas

A bloguemania está a difundir-se rapidamente. É, por enquanto, um exercício particular de quem gosta de ter opiniões abundantes e imediatas e revela uma acentuada necessidade de comunicar. A maior parte dos blogues que conheço aparenta-se ao género diarístico da antiga literatura. Um parente dissemelhante e de outra geração. Em todo o caso é um descendente_ À primeira vista é um descendente, em língua portuguesa, de um Miguel Torga menos esculpido em granito lexical, de um Vergílio Ferreira mais mundano na sua conta-corrente, de um Fernando Aires angustiado de metafísica, de um Cristóvão de Aguiar bloguista avant la lettre com a sua relação de bordo existencial. Até me lembrei de Teixeira de Pascoaes e de Raul Brandão, mas os blogues dos nossos cibernautas pouco tratam de sentimentos. Estão mais virados para a descoberta da luta política por conta própria. Porque será? É claro que os blogues não são mais nem menos do que os sites precocemente envelhecidos pela necessidade de criar modas internéticas. Ainda há 50 anos se viravam os fatos do avesso, dando-lhes um retomado colorido, caso o tecido valesse a pena. O site é mais institucional, o blogue é mais individual _ ambos unidos por uma orgia de endereços electrónicos_ Deste modo, e antes que seja tarde, aproveito esta minha curiosidade de férias, para apresentar um modelo de blogue-notas:

Quinta-feira, dia 28: João Cravinho propõe António Guterres como cabeça-de-lista para as europeias. Não é a primeira vez que o faz, mas em Agosto o caso foi mais falado do que nos blogues que reservam uma entrada para Comentários(o). Acho uma boa ideia, embora não faltem excelentes candidatos a cabeças-de- lista para o Parlamento Europeu em quase todos os partidos do sistema, e até fora dele. Depois dos jogadores de futebol deve ser mesmo a melhor especialidade portuguesa. Por isso não me preocupo muito com o assunto. Alguém há-de aparecer. Prevejo um bom resultado do PS e a eleição de pelo menos um deputado do Bloco de Esquerda. Mesmo que o PSD perca essas eleições, com certeza que Durão Barroso não se demitirá. Vou guardar este blogue até Junho do próximo ano para o citar. Posted by José.

Sexta-feira, dia 29: Chuva. Como disse Teixeira de Pascoaes, o Outono em Portugal começa em Agosto. Esta chuva acaba com os incêndios, dirão os patriotas do clima.

Leio uns documentos da Casa Pia n'O Independente. Mas se todos os portugueses fossem avaliados, na indevida altura, por pedo-psiquiatras, quem garantiria o estado da nação no futuro?! E quantos blogues não seriam precisos para revelar as pulsões, as tendências, e até os actos de tanta gente feliz com lágrimas? Freud elaborou uma teoria geral. Em Portugal, pelo menos desde Pina Manique, elaboram-se fichas pessoais. Posted by Heterónimo Ferreira.

Sábado, dia 30: José Sócrates, no Expresso, afirma que António Guterres é o melhor candidato às eleições presidenciais. Pasmo com este afã de candidatar o presidente da Internacional Socialista a todos os cargos imagináveis. Tanto mais que agora ele vai em missão social da ONU junto de Lula da Silva, conforme também me ensina o mesmo semanário. Prevejo que António Guterres aproveitará a primeira ocasião para repetir estar retirado da política doméstica activa. Ainda é muito cedo para «o natural», como notou o E. P. C. A propósito será que o E. P. C. tem um blogue? Posted by Medeiros.

É isso. Um dia que deixe de ter a coluna no DN vou criar um blogue-notas!

Publicado por socioblogue em 12:20 PM | Comentários (18)

55. Francisco José Viegas, «Blogs, Não-Blogs»

55. Francisco José Viegas (Aviz) dedica mais algumas linhas à análise do mundo dos blogues.

Autor: Francisco José Viegas
Local: Blogue, Aviz
Data: 28 de Agosto de 2003

O pior que poderia acontecer aos blogs, além de elaborarmos códigos de conduta, seria determo-nos mais tempo do que o necessário nas razões que levam alguns bloggers a «encerrarem actividade». É provável que existam blogs que não resistam ao Verão ou que só existam porque há Verão, e disponibilidade, e vontade de falar. Isso dura enquanto dura. A natureza do blog é profundamente individualista — mesmo quando abriga vários individualismos. Acabam como começam, temos pena ou não, mas sabemos que ressuscitarão por aí, se ressuscitarem. O impulso que leva alguns bloggers a iniciarem actividade é precisamente o mesmo que os leva a «encerrar actividade». Alguns esgotam os seus objectivos. Alguns, outros, cansaram-se, e estão no seu direito. Outros mudam de rosto e não nos apercebemos (sim, sim). Têm uma marca de exibicionismo e de intimidade, de clarividência e de lugar-comum, de banalidade e de excepção. Tudo isso é natural. Que o Pedro, primeiro, tenha querido acabar com o Guerra e Pás e que o outro Pedro quisesse, depois, interromper o Flor de Obsessão é natural — porque as razões até estão lá inscritas (talvez mais no Guerra e Pás). Mas nada disso é dramático. Tudo isso estava escrito e inscrito, como disse.
Prevejo, de facto, que boa parte dos blogs acabem por estes dias, quando acabar o Verão, quando a vida ganhar «outro sentido» ou for necessário «regressar à vidinha». Um blog não é «um meio de comunicação social». O seu carácter flutuante diz-nos que «viver sempre também cansa», que há coisas que nascem da imensa harmonia do mundo, e que há outras que vêm do fundo da tempestade. Não interessa. Temos de ser tolerantes para com a própria natureza do blog, que é essa: existe enquanto existe.
Não sei quando acabará o Aviz. Vou escrevendo, tenho a noção de que escrever num blog é uma coisa precária (não tenho contador, não quero, não caio em tentação, não — claramente, não — acho que um blog tenha «audiência», talvez tirando o Abrupto), que somos voyeurs e objectos de voyeurismo em simultâneo. Mas há coisas que se dizem através dos blogs e há coisas que não digo através dos blogs. O que escrevo noutros lados não me impede de escrever o que escrevo no Aviz, mas não penso muito nisso. Não roubo tempo «ao outro lado» para escrever neste; nem roubo tempo «a este lado» para escrever no outro. Cada coisa — cada suporte — tem a sua natureza, mesmo que não a saiba identificar. No Aviz escrevo sobre a noite, sobre a insónia, sobre a minha fé e as minhas saudades, sobre política, sobre o que quiser, sem me importar com a opinião de Luís Delgado. Não tenho a ideia de uma «utilidade» dos textos; acho que há textos dos blogs que têm dignidade suficiente para serem publicadas em livro, numa revista, numa página de jornal; e há colunas de jornal que nunca deixaria que se publicassem no meu blog, porque nenhum preço paga aquela mediocridade, aqueles erros de gramática ou aquela falta de ideias. O mundo é um mistério, não é?
Acho que é por isso mesmo (por o mundo ser um mistério) que tenho um blog. Discuto com quem quero (e só com quem quero), discuto até onde quero (e só até onde quero), no registo mais «disponível» por que se possa optar. Provavelmente por ser assinado e se tratar de um blog público não é tão confessional como seria um «diário pessoal». Mas mesmo o carácter confessional da escrita, como se diz no Norte, «vai da pessoa». Muitas vezes, o Aviz é um texto único contra a noite, contra a insónia, contra os mosquitos que vêm com o Verão. E vai com a música que estou a ouvir.
Na generalidade, inclusive, penso que há blogs muito interessantes com que aprendi bastante — sobre literatura, sobre filosofia, sobre política. Com outros, irrito-me em silêncio porque prolongam aqui a ignorância que se detecta nas «conversas de circunstância», reproduzindo erros e omissões da imprensa generalista ou da mais alinhada. Mas por isso mesmo defendo a inexistência de qualquer código de conduta senão aquele que deriva do bom- senso — que é uma coisa muito pessoal. Desconfio daqueles que vêm educar as massas e arrebanhar multidões (acho o proselitismo muito discutível). Desconfio ainda mais daqueles que se vêem investidos da missão de «acordar consciências» para pôr toda a gente a discutir e a «debater». Aqui deixamos o que queremos e só somos julgados por isso. Acho bem que existam blogs que citem, citem, citem, que exponham as suas paixões e que escondam os seus amores. Tudo se nota, quando é escrito. Escrever profundamente é mostrar os lugares da paixão (a paixão, a divergência, o ressentimento, o amor, a delicadeza, a tranquilidade), mas só quando se quer. Muitas vezes é só insónia. Só perguntas: e a noite, o que é? — por exemplo.
Fazer de um blog mais do que isso já me parece extravagância.

Publicado por socioblogue em 12:14 PM | Comentários (15)

54. Patrícia, «Terça-feira, Agosto 19, 2003»

54. Patrícia (Mau Feitio) tece alguns comentários sobre o mundo dos blogues, debruçando-se sobre o que considera ser o pedantismo e o pseudo-intelectualismo de alguns blogues.

Autor: Patrícia
Local: Blogue, Mau Feitio
Data: 19 de Agosto de 2003

Terça-feira, Agosto 19, 2003

Fiz uma viagem mais longa do que o habitual pelos blogs portugueses. Com mais paragens, e também estas mais longas que o costume. Não me apetece procurar adjectivos para descrever o que li. Mas sem qualquer esforço vêm-me à cabeça dois substantivos abstractos: pedantismo e pseudo-intelectualismo.
Muita filosofia de trazer por casa, muito humor «eu sou tão culto que sei fazer piadas com este tema», muitas citações (em várias línguas, porque «claro que sabe francês, se não sabe saia do meu blog, sua amostra da cultura popular!»). E muitos nomes de peso largados aqui e ali, como quem não quer a coisa. Se eu agora disser «Proust» este texto fica logo com outro ar. «Kafka». E já agora, «existencialismo de Sartre e Kierkegaard». Mais uma ou duas e o Mau Feitio já pode constar daquela elite de links que esses blogs têm em comum (devem ser uns cem, que se linkam mutuamente).
E depois quando querem mostrar ao «povo» que no fundo também são pessoas comuns... lá vem a descrição de um dia bem passado, do tipo «entretive-me com a leitura comparada de Oscar Wilde e Bernard Shaw, com a apreciação profunda de uma peça de jazz contemporâneo, um passeio pelos antiquários do Príncipe Real e um bife com ovo a cavalo no Martinho da Arcada, temperado com os fantasmas das antigas tertúlias cujos espíritos em mim se perpetuam.»

Publicado por socioblogue em 12:10 PM | Comentários (28)