outubro 21, 2003

64. Pedro Fonseca, «Os Blogues Agora em Livro» e «Erros e Imprecisões»

Pedro Fonseca, num artigo do jornal O Público (Suplemento Computadores, Edição nº 4960 de Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003) referiu-se ao livro «Blogs», de Paulo Querido e Luis Ene, em dois textos: «Os Blogues Agora em Livro» e «Erros e Imprecisões». Paulo Querido pegou no texto e promoveu um debate - que tem sido deveras animado - a propósito do livro no seu blogue, «(O Vento Lá Fora)». Vale a pena acompanhar.

AUTOR: Pedro Fonseca
LOCAL: Imprensa, O Público
DATA: 20 de Outubro de 2003

Os Blogues Agora em Livro: Editada a primeira obra sobre a blogosfera nacional
Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003

Pedro Fonseca

Foi lançado na passada semana o primeiro livro de autores nacionais sobre os blogues. "Blogs" foi escrito por Paulo Querido e Luís Ene, e editado pelo Centro Atlântico na sua colecção Sociedade da Informação. Querido é colaborador do "Expresso", autor e responsável pela comunidade de blogues em weblog.com.pt. Ene é autor e licenciado em Direito. Ambos têm blogues.

O livro aproveita a vaga de mediatismo e consequente interesse sobre os blogues nos últimos meses para falar da sua existência e emergência, explicar como criar um e entrevistar alguns dos envolvidos nos últimos meses neste movimento. Termina com uma lista de blogues nacionais, explicada e assumida como uma escolha pessoal dos autores, mas que se pretendem como "uma lista dos blogues mais representativos da blogosfera portuguesa, organizada por temas".

Ainda em termos de objectivos explicitados pela editora, o livro propõe-se "colmatar a deficiência de reflexão sobre os weblogs, traduzindo a sua linguagem, abordando-os numa perspectiva histórica e contextualizando o seu crescimento". Neste sentido, a proposta poderá defraudar os interessados mais antigos no fenómeno dos blogues, que aqui vão encontrar informação suficientemente disseminada ao longo dos últimos anos. Mas, para os mais recentes "bloggers" ou os interessados em criar um blogue, o livro apresenta-se como uma obra bastante pedagógica.

Após um prefácio onde se declara à partida que escrever "um livro sobre blogues é uma obra ingrata" porque "a blogosfera, o universo da edição pessoal, está em mutação constante", avança-se para algumas "perguntas de algibeira", tentando explicar o que são blogues e a blogosfera "em 10 minutos" (ou, dito de outra forma, em 10 questões).

Quando se entra finalmente na primeira parte, "Da teoria à prática", os autores explicam a diferença entre um blogue e uma página pessoal na Web, afirmando com alguma controvérsia que, apesar da existência do "primado do autor", "o antepassado em linha directa do weblog é o fórum" e que tanto estes como as listas de discussão foram "exterminadas pela revolução do Blogger". Ou seja, entre um espaço pessoal como um blogue e um espaço comunitário como os fóruns, o primeiro é uma comunidade por incorporar comentários públicos (o que nem todos fazem, nomeadamente alguns bastante conhecidos). Aliás, mais à frente, explica-se que dar ou não a possibilidade de existirem comentários a um texto num blogue "é uma opção do respectivo autor" e que, "mais importante que o propósito, um blogue tem autoria".

Os próprios autores acabam por reconhecer, relativamente à questão do jornalismo e dos blogues, que estes "são na essência uma ferramenta pessoal, individual".

A segunda parte, a mais pedagógica do livro - e onde os interessados em criar um blogue vão ter ajudas preciosas sobre como o fazer facilmente no Blogger.com (ou noutros editores, porque a informação é generalizada) -, termina com a menção de outros editores de blogues, nomeadamente o weblog.com.pt, meritória iniciativa do co-autor Paulo Querido mas que devia ter merecido uma nota (um "disclaimer", para usar o termo inglês) nesse sentido. Segue-se, na terceira parte, uma bem conseguida articulação de entrevistas - talvez a parte mais interessante ao dar voz própria aos autores de blogues a partir de perguntas consistentes.

Finalmente, o livro termina com a referida lista de blogues portugueses (e uns poucos internacionais), arrumados por áreas temáticas. O epílogo humorístico é apenas um "pequeno dicionário de inutilidades" sobre blogues. "Blogs" posiciona-se, assim, como o primeiro livro sobre esta "revolução", como lhe chamam os autores e, apesar de algumas falhas e erros (ver caixa), acaba por ser uma obra didáctica, recomendável a quem se interessa - ou quer vir a interessar-se - pelo assunto. A edição em papel custa 14,71 euros e a versão digital 7,36 euros (ver em http://www.centroatl.pt/titulos/si/blogs.php3 ).


Erros e Imprecisões
Segunda-feira, 20 de Outubro de 2003

P.F.

À parte as discussões infindáveis sobre o que é um blogue, há erros factuais no livro - o que é pena. Por exemplo, que se teve de "esperar por 2003 para se ouvir falar pela primeira vez em blogosfera" em Portugal. Na apresentação do livro, um "blogger" nacional lembrou como guardou um recorte do semanário "Expresso" de 2002 sobre este assunto, que o levou posteriormente a criar o seu próprio blogue. No caso do Computadores, um dos primeiros textos sobre o assunto remonta a 29 de Julho de 2002, originado pela disponibilização de blogues no "Diário Digital" - uma comunidade de mais de 500 blogues nacionais que não merece qualquer referência no livro.

É igualmente excessivo generalizar que, "à escala mundial, é já do senso comum que a blogosfera se divide em dois períodos: o Antes de Raed e o Depois de Raed", referindo-se aqui o blogue criado por um habitante de Bagdad e actualizado antes - e, com alguma intermitência - durante a recente guerra no Iraque. Tal como não existe qualquer base séria para se referir que, em Portugal, o número de leitores quintuplicou ou que triplicou a quantidade de criadores de blogues após o surgimento do Abrupto, da autoria de Pacheco Pereira, em Maio deste ano.

Da mesma forma, é difícil basear a afirmação de ter sido a denúncia do Muito Mentiroso pelo Abrupto "o primeiro caso importante em que jornais e televisões andaram a reboque" dos blogues. Basta lembrar um caso anterior, em Junho, de vários médias (nacionais e estrangeiros) obrigados a desmentir, por pressão dos blogues, afirmações publicadas e atribuídas ao subsecretário da Defesa norte-americano Paul Wolfowitz sobre o interesse dos EUA na guerra do Iraque

Publicado por socioblogue em 09:41 PM | Comentários (27) | TrackBack

outubro 18, 2003

62. António Guerreiro, «A reportagem universal»

António Guerreiro, no Suplemento Actual (acesso pago) do Jornal Expresso apresenta em "A reportagem universal", uma critica ao universo dos blogues, discurso em grande parte construído no rebater das teses da influência positiva que o aumento da expressão individual significa para a criação de uma maior massa crítica no tecido social. "Tentaremos, sempre que isso se justificar, abrir a antena para a nossa blogosfera, ou blogolândia" para o debate ou confronto de opiniões com as ideias deste artigo de opinião. Começamos desde já por registar a interacção discursiva existente entre este e o metablogue anterior, "Ciúme".

AUTOR: António Guerreiro
LOCAL: Imprensa, Expresso (Suplemento Actual)
DATA: 4 de Outubro de 2003

"A reportagem universal

O novo fenómeno da comunicação chamado blog é um bom observatório das características do nosso espaço público e da hegemonia do discurso da opinião.
Subitamente, levantou-se uma euforia no mundo da publicidade - do espaço público - não propriamente por causa dos factos que produzem notícias, mas por causa das notícias que são culpadas dos factos, como diria Karl Kraus, cuja actualidade é cada vez mais notória. A jubilosa catástrofe - quotidiana, como são as verdadeiras catástrofes - chama-se blog. Não é um fenómeno completamente novo, mas, entre nós, surgiu há pouco tempo organizado segundo regras próprias, reivindicando uma certa autonomia, e já se tornou um respeitável objecto de estudo.
Não se pode, obviamente, caracterizar os blogs em geral porque, tratando-se de um meio que dispõe de uma enorme liberdade, há-os de todos os géneros e sobre as mais variadas matérias: os que reivindicam o mero direito à expressão, os de agitação política, os paródicos, os pornográficos, os literários, os que servem um saber, um gosto, uma causa, uma obsessão. Potencialmente, nenhum território lhes é interdito porque não há limites para o seu poder de penetração. Os limites são os do próprio meio, eficaz nas mensagens curtas e no registo do imediato, mas inadequado a tudo o que requer outro ritmo e outra temporalidade. Temos, assim, mais um factor - ecológico - que intervém na obliteração de cronologias lentas, sejam elas culturais ou políticas.
O facto curioso, em Portugal, é que o interesse pelos blogs não foi suscitado, em primeiro lugar, por terem acedido à livre publicação indivíduos e grupos que dela estavam excluídos, mas por terem entrado na «blogosfera» (numa posição de domínio, pois aqui também se criaram hierarquias) nomes que, regularmente ou de maneira esporádica, escrevem nos jornais ou são convidados pelas televisões. Este é um sinal eloquente de que há hoje uma corrida ao espaço público mediático (sintoma de uma perda da efectualidade da cultura e das instituições do saber) e de que este não é capaz de se estruturar de outra maneira que não seja segundo o regime do mandarinato. É este regime o responsável pela hipertrofia da «opinião» que caracteriza a imprensa, em Portugal, e que a grande maioria dos blogs prolonga na perfeição. Os blogs mais frequentados, isto é, aqueles para onde estamos constantemente a ser remetidos através dos «links», quando entramos na «blogosfera», apresentam-se, assim, como uma esfera funcional das páginas de opinião dos jornais, mesmo quando têm um registo diarístico e pessoal. Digamos que os blogs economizaram algumas etapas e chegaram rapidamente ao ponto a que já chegaram ou aspiram chegar os jornais: o da conversa desenvolta, cujos intervenientes são muito mais actores do que autores, ao serviço do espectáculo integral. Tão próximos estão - jornais e blogs - do mesmo universo cultural e funcional que não é possível fazer a crítica de uns sem fazer a crítica de outros. O que alimenta a maior parte dos blogs não é uma escrita mas uma conversa, como aquela que se pode ter no café com os amigos, e que se esgota numa troca que promove a confusão da esfera pública com a esfera privada.
Bastante representativo é um dos blogs mais citados e considerado geralmente como um modelo: o «Abrupto» (www.abrupto.blogspot.com), de José Pacheco Pereira. As posições críticas de J.P.P. em relação aos jornais são bem conhecidas. No entanto, ele esbarra geralmente no facto de o seu estatuto e prestígio se alimentarem exactamente do sistema mediático que critica - um sistema que vive da lógica do vedetismo, da omnipresença e da usurpação. Aquilo que Pacheco Pereira representa no território dominante dos clérigos da opinião é uma criação específica do nosso espaço público, não poderia existir senão em Portugal. À primeira vista, o seu blog parece uma tentativa de «desjornalizar» a sua escrita e de entrar no campo mais afável do discurso cultural e do apontamento pessoal. Mas há algo de mais jornalístico, nos nossos dias, do que estas deambulações sócio-político-culturais, em formato magazinesco, servidas por um político? Não há. E eis, então, Pacheco Pereira convidado a montar o seu espectáculo dentro do programa de variedades que é o «Jornal da Noite», da SIC (como, aliás, todos os outros jornais televisivos), ao mesmo tempo que Marcelo Rebelo de Sousa, o Professor, no canal ao lado, aconselha os quatorze livros que leu durante a semana.
O discurso inócuo do «fait-divers» político-cultural e da conversa de família ou de amigos domina, de modo geral, os blogs. Evidentemente, não se trata de algo que seja estranho aos jornais. Mas a questão é esta: porque é que professores universitários, poetas, escritores, críticos desejam tanto jornalizar-se (no duplo sentido do discurso jornalístico e do discurso diarístico) através da «bavardage», do exibicionismo, da falsa subjectividade opinativa? A excepção a este regime são aqueles blogs que tentam fazer um uso produtivo da especificidade do meio, com a consciência do risco e da experimentação que isso implica, excluindo-se da relação funcional com o mero discurso diarístico e a conversa opinativa. Um exemplo: «Reflexos de Azul Eléctrico» (www.reflexosdeazulelectrico.blogspot.com), da responsabilidade de José Bragança de Miranda.
Não é preciso ter lido Habermas para perceber que a expressão individual e o direito à opinião que alimentam a maior parte dos blogs têm um grande valor decorativo mas não têm nada que ver com uma esfera pública crítica (que, de resto, tem cada vez menos condições, em Portugal, para se constituir). Por isso é que é falaciosa a afirmação de Pacheco Pereira, no seu blog: «O mundo continua lá fora e quanto mais vozes se ouvirem melhor. Eu sou um liberal, acredito na lei dos grandes números, na ‘mão invisível’. Há virtudes na cacofonia, cada voz a menos empobrece.» Esta teoria democrática da expressão individual (que só por equívoco podemos pensar que é de inspiração iluminista) é duplamente falaciosa: 1) porque esquece deliberadamente que o sistema é hipertélico, isto é, vai para além dos seus próprios fins e anula-se na sua finalidade; 2) porque se baseia no princípio imposto pelos «mass media» de que tudo o que eles fazem aparecer é bom e não resta outra tarefa senão a de jornalizar o discurso na cacofonia generalizada. Esquecida fica a responsabilidade de interromper a conversa. Esta lei da submissão ao ruído público - e da dependência visceral que ele cria - não é senão a lógica dos «grandes redutores», dos que não conseguem pensar fora da lógica do jornalismo e da agitação política e cultural."

Publicado por socioblogue em 02:04 AM | Comentários (22) | TrackBack

setembro 02, 2003

57. Verne Kopytoff, «Internet giants catch on to blogs: Major portals provide services for online journals»

Verne Kopytoff, do San Francisco Chronicle, debruçou-se sobre o fenómeno de «mainstreamização» dos blogues num artigo intitulado «Internet giants catch on to blogs: Major portals provide services for online journals».

Autor: Verne Kopytoff
Local: Imprensa, San Francisco Chronicle
Data: 1 de Setembro de 2003

Internet giants catch on to blogs: Major portals provide services for online journals

Blogs, online diaries kept by people who want to share their thoughts, peeves and lives with others, are an underground phenomenon. Right?

It's a niche world of small Web sites that most people outside the blogging community have no idea exists. Right?

Wrong. Blogging is becoming mainstream.

America Online, the Internet behemoth, began offering blogging to its users in August. At the same time, Yahoo started experimenting with blogs on its Korean Web site and is believed to be considering expanding the service elsewhere in its vast network.

Google and Lycos began offering blogging earlier this year.

"It definitely seems like blogging is losing its underground image," said Matthew Haughey, co- author of the book "We Blog: Publishing Online with Weblogs" and co-founder of Blogroots, a Web site that chronicles blogging news.

"I'm hopeful that it's a good thing that every Tom, Dick and Harry has a blog. "

Analysts say that the big Web portals are trying to capitalize on the growing popularity of blogs, journals that are frequently updated with everything from personal musings to art, poems and photography. Analysts agree that hundreds of thousands if not millions of people have created such Web pages within the past few years.

Reasons to keep blogs vary, but most bloggers say they are simply a way to express themselves, connect with others and work with software.

"I use it as a sociological experiment to see what kinds of things I post will cause people to comment," said Peter Steinauer, a software engineer from San Francisco who keeps the blog, www.swimfinssf.com.

Steinauer's blog touches on everything from trying to get a deck built for his home (none of the contractors he left messages with returned calls) to gay politics (he supports same-sex marriage) to details about his latest dinner (whiskey flank steak, green beans and au gratin potatoes). He said that up to 100 people visit his Web site every day.

The blogging community is still relatively small. Only 2 percent of online households visit a blog site once a week or more, according to a survey released last month by Forrester Research, a market research firm.

In fact, a big portion of the respondents, 79 percent, had never even heard of blogging before the survey.

For the big Web portals, offering blogging software and pages is a way to attract and keep users. The direct financial benefits, however, are limited, analysts say.

"It's a lot of hullabaloo over not a lot of value," said Chris Charron, an analyst for Forrester Research, a market research firm. "That's not to say that blogs don't add value to the people who use them."

The portals have little choice but to offer blogs for free. Charging is difficult because free blogging software is so widely available elsewhere on the Internet.

Advertising is one way to make money. In fact, it appears on blogs created using the software of certain companies, but big advertisers aren't generally interested in blogs, Charron said.

"The quality of these blogs is incredibly variable," Charron said. "It's just not likely to generate a lot of value for an advertiser."

Rick Robinson, vice president for community products at America Online, said his new company's blogging feature, AOL Journals, has about 30,000 registered users so far. It filled a gap in what the Web service offers for personal publishing, he said.

There was no easy way for users to create a Web site on AOL that they could update regularly, Robinson said. At the same time, his company was monitoring the growing popularity of blogging.

What AOL created is a service that it bills as having many uses. Members can create a journal, blog, online column or travelogue, then supplement them with photos and picture albums alongside the text.

"We're trying to be a little more leading edge," Robinson said.

Robinson said AOL realized that its leap into blogging might anger the blogging community, known as an independently minded group. To avoid conflicts, his firm met with many small blog developers and users during the past year.

"We wanted to make sure they knew we were coming into the community but not taking it over," Robinson said.

Google, the popular Internet search engine in Mountain View, got into blogging by buying Pyra Labs, owner of Blogger.com. The value of the acquisition, made in February, was not disclosed.

Google has modestly integrated Blogger.com into its operations. For example, users can place a link to a blog of their choice through the Google tool bar. Google also places ads on blogs created through Blogger.com.

"I think that blogging will be much, much bigger than it is," said Evan Williams, a program manager for Pyra Labs and a co-founder of Blogger.com. "Maybe not everyone in the world will blog, but I think it will become a natural part of the Internet."

Haughey, the author, said that there are two sides to the growth in blogging. It has always been a venue for discussion where bloggers post and then solicit comment from readers.

"There's always a chance that you have wild new perspectives," Haughey said.

He added, "Some of the old bloggers have complained that as the numbers go up, it's hard to find useful blogs."

Asked whether bloggers will have an aversion to using the big portals, Haughey said not necessarily. He said it depends on how good services are, but he added that old-school bloggers value registering their own, catchy Internet domains.

"I think that most old bloggers want myblog.com, not aol.blogs/username."

Publicado por socioblogue em 02:27 PM | Comentários (138) | TrackBack

56. José Medeiros Ferreira, «Blogue-Notas»

Numa crónica que titulou de Blogue-Notas, publicada hoje no Diário de Notícias, o historiador José Medeiros Ferreira dedica alguma atenção ao mundo dos blogues.

Autor: José Medeiros Ferreira
Local: Imprensa, Diário de Notícias
Data: 2 de Setembro de 2003

Blogue-Notas

A bloguemania está a difundir-se rapidamente. É, por enquanto, um exercício particular de quem gosta de ter opiniões abundantes e imediatas e revela uma acentuada necessidade de comunicar. A maior parte dos blogues que conheço aparenta-se ao género diarístico da antiga literatura. Um parente dissemelhante e de outra geração. Em todo o caso é um descendente_ À primeira vista é um descendente, em língua portuguesa, de um Miguel Torga menos esculpido em granito lexical, de um Vergílio Ferreira mais mundano na sua conta-corrente, de um Fernando Aires angustiado de metafísica, de um Cristóvão de Aguiar bloguista avant la lettre com a sua relação de bordo existencial. Até me lembrei de Teixeira de Pascoaes e de Raul Brandão, mas os blogues dos nossos cibernautas pouco tratam de sentimentos. Estão mais virados para a descoberta da luta política por conta própria. Porque será? É claro que os blogues não são mais nem menos do que os sites precocemente envelhecidos pela necessidade de criar modas internéticas. Ainda há 50 anos se viravam os fatos do avesso, dando-lhes um retomado colorido, caso o tecido valesse a pena. O site é mais institucional, o blogue é mais individual _ ambos unidos por uma orgia de endereços electrónicos_ Deste modo, e antes que seja tarde, aproveito esta minha curiosidade de férias, para apresentar um modelo de blogue-notas:

Quinta-feira, dia 28: João Cravinho propõe António Guterres como cabeça-de-lista para as europeias. Não é a primeira vez que o faz, mas em Agosto o caso foi mais falado do que nos blogues que reservam uma entrada para Comentários(o). Acho uma boa ideia, embora não faltem excelentes candidatos a cabeças-de- lista para o Parlamento Europeu em quase todos os partidos do sistema, e até fora dele. Depois dos jogadores de futebol deve ser mesmo a melhor especialidade portuguesa. Por isso não me preocupo muito com o assunto. Alguém há-de aparecer. Prevejo um bom resultado do PS e a eleição de pelo menos um deputado do Bloco de Esquerda. Mesmo que o PSD perca essas eleições, com certeza que Durão Barroso não se demitirá. Vou guardar este blogue até Junho do próximo ano para o citar. Posted by José.

Sexta-feira, dia 29: Chuva. Como disse Teixeira de Pascoaes, o Outono em Portugal começa em Agosto. Esta chuva acaba com os incêndios, dirão os patriotas do clima.

Leio uns documentos da Casa Pia n'O Independente. Mas se todos os portugueses fossem avaliados, na indevida altura, por pedo-psiquiatras, quem garantiria o estado da nação no futuro?! E quantos blogues não seriam precisos para revelar as pulsões, as tendências, e até os actos de tanta gente feliz com lágrimas? Freud elaborou uma teoria geral. Em Portugal, pelo menos desde Pina Manique, elaboram-se fichas pessoais. Posted by Heterónimo Ferreira.

Sábado, dia 30: José Sócrates, no Expresso, afirma que António Guterres é o melhor candidato às eleições presidenciais. Pasmo com este afã de candidatar o presidente da Internacional Socialista a todos os cargos imagináveis. Tanto mais que agora ele vai em missão social da ONU junto de Lula da Silva, conforme também me ensina o mesmo semanário. Prevejo que António Guterres aproveitará a primeira ocasião para repetir estar retirado da política doméstica activa. Ainda é muito cedo para «o natural», como notou o E. P. C. A propósito será que o E. P. C. tem um blogue? Posted by Medeiros.

É isso. Um dia que deixe de ter a coluna no DN vou criar um blogue-notas!

Publicado por socioblogue em 12:20 PM | Comentários (23) | TrackBack