Luis (Sublinhar), evocando Dostoievsky, produz uma pequena reflexão sobre a escrita nos blogues e sua analogia com um diário. [dica de icosaedro]
Autor: "Luis"
Título: «Diário»
Meio/Local: Blogue, Sublinhar
Data: 20 de Novembro de 2003
Tema: Weblogs & Blogging.
Palavras-Chave: blog, escrever.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
Diário
Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente."
Ou seja, algo muito parecido com um blog.
Mas três meses depois ele escreve:
"Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho 10 ou 15 assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiao ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público..."
Eu, ao escrever aqui, sinto muitas vezes essa mesma artificialidade... essa mesma impossibilidade de escrever tudo...
e espero, ingenuamente, que os silêncios possam dizer o que calo... mas isso, sei-o bem, é um desejo condenado ao fracasso.
Há alguns dias Paulo Querido publicou um texto intitulado «O Que Falta à Blogosfera». Agora, Francisco José Viegas (Aviz) responde a esse texto.
Autor: Francisco José Viegas
Título: «O Que Falta à Blogosfera»
Meio/Local: Blogue, Aviz
Data: 23 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
O Que Falta à Blogosfera
O Paulo Querido publicou no seu blog um bom texto com este título. Trata, no essencial, de questões que já preocuparam por diversas vezes os blogs mais atentos ao «fenómeno» (hoje já não é fenómeno nenhum) — e é muito pertinente. Aborda, também, o «efeito pernicioso» dos blogs «mais mediáticos» — o Abrupto, o Dicionário do Diabo ou o Aviz, por exemplo — nomeadamente o seu compreensível efeito totalitário (a expressão é minha, não do Paulo — mas acho adequada à circunstância). Ora, há aí um problema que não tem a ver com o peso de um blog, com a sua influência ou a sua presença permanente, mas com a forma como é feito. Só posso falar por mim, até porque o blog é só meu. Comecei o Aviz como toda a gente: para experimentar e para ver se era possível dizer alguma coisa. Acabou por ser um diário com poucas interrupções; nunca medi audiências e o assunto pouco me interessa; tem uma circulação que desconheço (uso o netcode.pt para fazer rastreio de «referências» e não para contar visitas); é «intimista» quando me apetece, confessional quando preciso, irritado quando acontece. Ainda no meu caso — o que é estritamente pessoal, portanto, oscilando nesta fronteira do semi-público — nem sequer o faço para escrever sobre coisas «que não cabem noutro lugar» ou para «fazer exercício». Faço-o enquanto houver blogosfera, e mais nada — e enquanto tiver tempo ou precisar de escrever sobre o que me apetecer, sem agenda, sem alguém a pedir-me satisfações. Esta questão da agenda reconheço que é importante, mas não me interessa para nada; continuo a dizer que escrevo sobre o que me apetece, quando posso (ou não posso evitar), sobretudo porque não tenho e nunca tive responsabilidades políticas, mas também não reinvindico nenhuma inimputabilidade política.
A blogosfera é uma comunidade disponível, muito aceitável culturalmente, e tenho aprendido bastante com ela. Se conhecemos pessoalmente os autores de blogs, sabemos que os seus defeitos e vastas virtudes continuam; dos outros, só conhecemos os textos e o mau carácter (que transparece sempre), o que é bastante. Como em todo o lado, essa disponibilidade afecta tanto os «blogs mais mediáticos» como os absolutamente anónimos graças a essa pequena mas graciosa circunstância de não haver controle sobre o que possam dizer uns dos outros, ao contrário da televisão ou dos jornais, por exemplo.
Não me agradaria nada ver os blogs (como estes, que leio) transformados em «órgãos de comunicação social» com o peso jornalístico que lhe é atribuído muitas vezes. Mas isso é com cada um. Confesso, aliás, que os blogs menos interessantes são os que estão permanentemente dependentes da agenda dos jornais — à esquerda e à direita. Não porque acabem a falar uns para os outros, coisa que é inevitável em tudo (e não me parece mal, pelo contrário; pelo menos fala-se para alguém), mas porque a mim me interessam menos. Quando escrevo que a mim me interessam menos, isso significa, também, que sou e sempre fui contra um «estatuto editorial» da blogosfera (já escrevi aqui sobre isso), contra a limitação dos temas, contra a limitação dos tons em que se escreve. A blogosfera agrada-me também por isso, por poder ser anárquica nessa matéria e ninguém poder impor ao Pacheco Pereira que não escreva sobre a luz, o equinócio ou a filatelia, ou ao Pedro Mexia que não escreva sobre bandas pop, actrizes bonitas ou fenomenologia, ou impor ao Náufrágios que só escreva sobre barcos encontrados no fundo do mar dos Açores, ou proibir o Jorge Marmelo de escrever sobre literatura brasileira. Ninguém pode obrigar o Joel Neto a comentar o Benfica, pedir ao Contra a Corrente que não seja de Évora, ou exigir ao João M. Fernandes que seja «politicamente certinho» e que não se diverta quando quer. É como pedir-me que não me divirta sinceramente com um dos blogs de que mais gosto (e que mais invejo pelo permanente sentido de humor), o dos Marretas, por exemplo, ou alguém irritar-se por o Tiago ser protestante e o Rua da Judiaria ser judeu. Se o Alberto Gonçalves, que geralmente escreve sobre política, quiser escrever sobre aqueles dois restaurantes fantásticos de Bragança e de Mogadouro, isso é mau? E se o Avatares de um Desejo, o A Aba de Heisenberg e o Klepsydra decidirem que durante uma semana só comentam futebol? Temos polícia à porta?
Daí que, embora não concorde com as posições políticas de muitos «blogs políticos», não estou para dar lições nem para ir, a correr, recebê-las. Aliás, uma das coisas boas da blogosfera é precisamente isso: o ar ridículo que toma logo quem aparece a dar lições, a vestir-se de sacerdote, a impor uma agenda ou — vamos lá... — a aborrecer-nos com a sua infinita presciência, quase sempre gritada com a impressão de que se ganhou uma grande batalha intelectual.
Ou seja: a blogosfera também me agrada porque ninguém pode impor silêncio seja a quem for, nem pode obrigar seja quem for a falar sobre aquilo que acha que devia ser matéria para pronunciamento.
Ora, apesar do «efeito pernicioso» dos «blogs mais mediáticos», reconheço que muitos textos que me comoveram, que chamaram a minha atenção por motivos sérios ou risíveis, vêm de blogs anónimos (ou, pelo menos, de pessoas que não conheço). São, como escrevi antes, relâmpagos que iluminam a paisagem. A paisagem, nós sabemos como é: tem os seus declives, os seus rios, as suas montanhas — mas os relâmpagos não são previsíveis como a paisagem. De vez em quando descubro um blog que tem aquela frase, ou que vê aquele pormenor. Como isto não é uma batalha letal, não digo que eles estão certos — digo só que me juntei a eles, que os juntei nas minhas leituras, que me comoveram de alguma maneira. O que me basta perfeitamente. Se quiser mais, vou à biblioteca.
O resto é como na vida em geral. Não gostam? A porta está aberta nos dois sentidos. Só está cá quem quer.
Retomando um assunto qua já abordara num texto anterior, Paulo Querido [(o vento lá fora)] desenvolve alguns dos tópicos que aflorara previamente.
Autor: Paulo Querido
Título: «O Que Falta à Blogosfera»Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 15 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
O que falta à blogosfera
Ao contrário do que se pensou e escreveu (eu também escrevi), a entrada do Abrupto e do Aviz para a blogosfera não trouxe afinal a emancipação dessa mesma blogosfera. É inegável que a veio enriquecer do ponto de vista qualitativo (trata-se de dois autores de bom nível), é inegável que mediatizou os blogs (o que também tem efeitos perversos, como agora se nota), aparentemente chamaram mais autores -- e digo aparentemente porque hoje tenho dúvidas sobre o que teria acontecido SEM eles.
Tais blogs "de referência" têm tido até sobretudo um efeito pernicioso sobre a blogsfera, sobre a rede, contribuindo para a "adormecer" e cristalizar (falo disso mais adiante). Sem qualquer tipo de desprimor para os respectivos autores, que prezo e admiro; o assunto não passa directamente por eles.
Ao contrário do que temos por adquirido, a sua vinda não foi o rastilho para a blogsfera se assumir como uma rede alternativa de informação e opinião. Na verdade, a blogsfera não existe: o que existe são pequenos, muito pequenos círculos de blogs que se referenciam uns aos outros horizontalmente, havendo muito poucos blogs de um círculo que sejam referenciados noutro, verticalmente. As excepções verticais contam-se pelos dedos: além do Abrupto, é o Pedro, o João e... hum? não me ocorre agora mais nenhum.
As razões disto são complexas e não se ficam pelos blogs. Há dois factores externos que MUITO contribuem para a não-existência de uma rede de informação/opinião em Português. Em duas palavras, são eles a absoluta e absurda ignorância dos media portugueses face às novas tecnologias de interligação digital e a ausência de um portal nacional de referenciação, como o Blogdex ou o Technorati.
[Os meus esforços no weblog.com.pt são claramente insuficientes: nem se faz por hobby, nem se faz sem recurso a programadores competentes (eu não sou programador, quanto mais competente), nem se faz sem uma estratégia pensada por uma equipa (recordo que o weblog.com.pt técnica e estrategicamente é... eu, uma só pessoa, manifestamente pouco para a ambição de um tal projecto, estou condenado a colocar as dúvidas ao espelho e a obter respostas de algum dos meus heterónimos... um processo fastidioso e frustrante).]
Um exemplo actual: os acontecimentos com os jornalistas portugueses em funções no Iraque. Se quisermos mergulhar no assunto temos de andar a vasculhar tanto os sites informativos como os blogs, um por um. Uma perda de tempo incompatível com os actuais ritmos de assimilação da realidade. Não há um centro nevrálgico onde me possa dirigir para ver logo o peso relativo do assunto -- que é imenso nestes dias, penso aliás que será o tema dominante na arena mediática global (Imprensa e blogs) desde sexta-feira passada até provavelmente domingo.
Mas como posso eu provar (ou desmentir) esta minha teoria? Não tenho ferramentas. Não há rede. Existem apenas pontos suspensos no espaço digital. Demasiados pontos para poderem, em tempo útil, ser verificados um por um. Não temos forma de avaliar que temas dominam essa mesma arena (excepto, naturalmente, a vasculhação manual, a consulta de centenas de páginas para apurar os links e depois redigir uma página sobre o tema; impensável). E nisso a blogosfera está atrasada. É por isso que digo que não há uma blogosfera: há um conjunto alargado de blogs mas não estão em rede.
Bastava que a TSF, o Público, a SIC e o DN (para citar apenas quatro) tivessem índices RSS/XML/RDF e que os blogueiros tivessem crescido um pouco tecnicamente (era a isso que me referia quando falava de amadurecimento no outro texto) para que, calmamente, com um único clique eu poder ter uma ideia muito clara do peso relativo do tema na actualidade informativa/opinativa de Portugal.
Voltando aos blogs "de referência" e aos seus efeitos perniciosos. Por um lado, cristalizaram o who's who. A par do Gato Fedorento, do Pipi e dos Marretas, dominam a lista dos inbound links. Um fenómeno já estudado, aliás. Neste momento há pessoas (a começar pelo autor do Technorati e passando por outros membros proeminentes da blogosphere) a pensar o assunto e em formas de quebrar o cristal permitindo o acesso de novos blogs aos tops.
Por outro, na ausência de contrapontos (como o sistema de avaliação em contínuo dos temas predominantes que já falei acima) a tendência dos leitores é para considerarem os "de referência" como autoridades opinativas em toda e qualquer matéria. A realidade é aquilo de que eles decidirem falar. O efeito disto nas massas -- e digo massas porque há evidentemente gente que não lê blogs da mesma forma que consome jornais e televisão, mas a maioria tem dos blogs essa visão estreita PRECISAMENTE POR CAUSA DO MEDIATISMO DOS BLOGS DE REFERÊNCIA -- é absolutamente contrário ao esperado (desejável?) de um meio dito democrático.
A democraticidade de acesso que os blogs nos trouxeram permite efectivamente a emissão de MAIS correntes de opinião do que as disponíveis na esfera mediática tout court (sem blogs, só Imprensa), onde não passam de três ou quatro em perfeita união com o espectro político-partidário e a este subordinadas. Na blogosfera há dezenas de correntes disponíveis.
Porém, e paradoxalmente, isto não veio impedir que continuemos por enquanto a viver uma ditadura opinativa reflexa na blogsfera. A ausência de circuitos que liguem os nós da rede obriga os leitores a dirigirem-se directamente aos nós -- e tendencialmente os nós proeminentes obtém mais visibilidade.
Próximos capítulos: a tentativa de construção de rede dos "de direita" e porque falhou quase rotundamente; o caso espanhol; os blogs de escritores.
PS: este texto (e as sequelas que hão-de vir) surge inspirado / encorajado pelos comentários suscitados pelo meu desabafo aqui. Outro texto recomendado para a compreensão do assunto é Blogs: o poder ao indivíduo, publicado inicialmente no Expresso.
Paulo Querido [(o vento lá fora)], acaba de escrever um texto onde se reporta ao "estado da nação" blogosférica. Para tal, faz uma comparação com a realidade norte-americana. O texto intitula-se «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera».
Autor: Paulo Querido
Título: «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera»
Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 14 de Novembro de 2003: 23:34
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
Falta qualquer coisa à blogosfera
Dou uma volta pelos blogs que visito menos: a chamada blogosfera, que eu gosto de chamar umbigosfera. A voltinha pelas vacas sagradas, Mexia, Lomba, Pereira, Viegas, Barnabé, Esquerda etc, estão a ver?
Há semanas que não fazia a voltinha saloia. O pouco tempo que me sobra, tenho-o investido na blogosphere.
Conclusão da voltinha: o Mexia está, felizmente, cada vez mais na mesma (a dele, que é boa), o Lomba e o Barnabé picaram-se mutuamente,eu gosto sempre de uma boa polémica e esta é... boa, embora já tenha visto melhor de ambos [o picanço visto de fora], os outros está tudo cada vez mais na mesma. Quem leia o pelotão da frente fica um bocado naquela de que não existe pelotão de trás.
A blogosfera está cristalizada. O tempo parece ter parado em torno dos umbigos do costume. Quem leia, parece que não se passa mais nada, que não há blogues novos, entusiasmantes, ideias frescas, gente engraçada.
Já a blogosphere não. Mexe activamente. Nos EUA blogar é um bocado mais do que escrever. É manter um blog. É cuidar dele como quem cuida do vestuário. É estar a par. É fazer parte. É não perder a onda.
Acho que está a faltar à blogosfera gente mais interessada na ferramenta e mais disponível para colaborar na rede. Os blogs fazem (mais) sentido quando são uma rede. Só uma rede é uma coisa viva. Um conjunto de páginas, por muito bem escritas quer estejam, não constituem uma rede. Sem se interligarem estão mortas.
Mas isto sou eu que acho.
"Segismundo", do Albergue dos Danados, produziu uma pequena entrada onde apresenta mais uma contribuição para uma definição daquilo que é um blog.
Autor: "Segismundo"
Título: «Um blog é»
Meio/Local: Blogue, Albergue dos Danados
Data: 30 de Outubro de 2003
Tema: Psico-Antropo-Sociologia do Blogging
Palavras-Chave: blog, solidão.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
Um blog é
Um blog tende a ser um expositor de solidão. Pode ser uma solidão fingida, ensaiada, simulada, negada, mas é, sempre, uma solidão, uma solidão projectada, projectada para os outros, uma solidão publicitada. Reconhecida pelos outros, essa solidão como que se desintegra, sem, no entanto, se desintegrar de facto. Começa aqui a ilusão da comunidade. E muitos caem nela. Como quem cai numa rede. Porque é reticular e não comunitária a plataforma onde as solidões, expressas nos blogs, se encontram. O engano é uma constante vital.
Na sua entrada "BLOG IS A BLOG IS A BLOG", Alexandre Andrade de umbloguesobrekleist esboça uma crítica a uma certa febre classificativa que, vinda do lado de fora da blogosfera e transportada, um pouco acriticamente, para o seu interior, assolou o mundo dos blogues. Para além de duplamente pertinente, na verdade além da importância da mesma estamos num (Meta) Blogue que pretendendo ser um "respigador" de discursos sobre a blogosfera tenderá inevitavelmente para um dia propôr o seu próprio "organizador" dos discursos, esta entrada tem também a valia de, em resposta ao mote "O que procuro eu de um blogue?" dar conta de uma determinada perspectiva, a do autor, de observar o mundo dos blogues.
AUTOR: Alexandre Alexandre
DATA: 12 de Outubro de 2003
LOCAL: umblogsobrekleist
"BLOG IS A BLOG IS A BLOG: Todos sabemos que, nos últimos meses, a magnitude que o fenómeno dos blogs atingiu levou a comunicação social (e em especial a imprensa escrita) a interessar-se pelo assunto, e a desmultiplicar-se em reportagens. Nada disso é surpreendente, nada disso se me afigura lamentável ou negativo. O que me confrange, isso sim, é constatar a maneira como as categorias e prioridades criadas e promovidas pela imprensa clássica quando fala de blogs se reflectem, mal sofrendo crítica ou cepticismo, nos próprios debates entre blogs. Nada melhor do que um exemplo para esclarecer onde pretendo chegar. Antes do verão, muito se discutiu até que ponto o fenómeno dos blogs sobreviveria às férias grandes, até que ponto a desenfreada expansão que se verificou na primeira metade do ano continuaria a ocorrer quando chegassem Setembro, as primeiras chuvas e o equinócio. Não é este um debate que careça de legitimidade; mas é pena que tenha sido conduzido na óptica de um "fenómeno blog" criado e nutrido pelos jornais, essencialmente a partir do momento em que alguns nomes sonantes "legitimaram" a blogosfera. Era desse "fenómeno blog", moldado aos cânones jornalísticos, convertido ao espaço noticioso com a benevolência interessada que se reserva a um ovino tresmalhado, que se discutia a sobrevivência. E, se esta questão é importante a partir do momento em que se reduzem os blogs a estereótipos (espaço de intervenção, forte ou moderadamente politizado, meio de divulgação de opiniões pessoais, clone de crónica jornalística), bem menos o será se tivermos em conta a espantosa diversidade do fenómeno, e se nos resignarmos à impossibilidade manifesta de se identificarem denominadores comuns. A blogosfera é uma constelação de partes que resistem a ser adicionadas ou amalgamadas. Para além da magreza lacónica da sua definição, um blog é uma ferramenta com um número virtualmente infinito de aplicações
O que procuro eu num blog? Acima de tudo, isto: a criação de um modo de estar e de intervir próprio, que reflicta, afinal de contas, o carácter único de uma personalidade. Regra geral, pouco interesse me despertam blogs que pouco mais sejam do que repositórios de opiniões e desabafos. Procurar a originalidade a todo o custo pode não ser algo recomendável, mas sou particularmente seduzido por aqueles espaços onde sinto existir uma componente forte de ousadia formal, mas também de simulação (a transparência absoluta, em 99 % dos casos, horroriza-me). É talvez por isso que tendo a dar preferência aos blogs pessoais em detrimento dos colectivos, se bem que também existam alguns excelentes, escritos por um número de colaboradores apreciável (Aba de Heisenberg, Janela Indiscreta, País Relativo...).
O que procuro eu num blog? Talvez pouco mais ou pouco menos do que procuro numa pessoa com quem trave conhecimento. Diz-se frequentemente que «Viver é mais importante do que blogar», ou «Há coisas mais importantes na vida do que os blogs», ou variantes destas máximas. Por detrás da robusta evidência, parece ocultar-se a convicção de que as horas passadas frente ao computador, a teclar textos para o ciberespaço, são excrescências da "verdadeira vida"; na melhor das hipóteses, um luxo; na pior, uma tara. Eu creio que blogar é uma parte da vida, cuja importância relativa variará, como é natural, de indivíduo para indivíduo. Sendo uma parte da vida, por definição, faz parte de um combate quotidiano pela felicidade.
O que procuro eu num blog? Partilhar as palavras de alguém que posso não conhecer, mas que me suscita estima, admiração ou interesse; coleccionar instantâneos dessa luta pela felicidade, a única que vale a pena; espantar-me com as declinações que tais esforços admitem, de pessoa para pessoa, de dia para dia. Expor-me, em suma, à inteligência e à sensibilidade alheias em flagrante delito de interacção com o Mundo das coisas e dos factos.
O que eu procuro num blog é aquilo que eu aprecio numa pessoa, na vida "real".
O que os blogs nos trouxeram foi um meio. Uma resposta à pergunta "como agir?". De hoje para amanhã, os blogs podem deixar de ser mencionados noutros lugares; a moda pode passar. Mas o meio existe; e a única questão que me interessa é saber se continuarão a existir pessoas que dele se sirvam."
Numa pequena nota intitulada "Os Blogues agonísticos", Bruno Sena Martins (Avatares de Um Desejo), um dos metabloggers mais empenhados e consistentes, preconiza a existência de uma "transição motivacional" em alguns bloggers mais antigos. Vale a pena ler.
AUTOR: Bruno Sena Martins
LOCAL: Blogue, Avatares de Um Desejo
DATA: 27 de Outubro de 2003
Os Blogues agonísticos
Nas reflexões que os bloggers mais antigos vão fazendo da sua actividade, noto uma transição motivacional. Explico. Ao princípio o gosto de Blogar era mormente expresso como estando associado ao desejo de feedback, de um correlato ao que se escreve e faz na arena pública, algo que na blogosfera é bem superior a outros espaços de comunicação que, inclusive, muitas vezes, atingem um público mais vasto. Ao fim de uns meses a ênfase parece ser dada à obrigação que o blogger criou para com os seus leitores, às expectativas criadas e ao desejo de não as desiludir. Chamo a isto de escrita agonística. (sublinhado original)
Fabrizio Ferri Benedetti (La Cosa Húmeda), titulou de «El Arte de la BlogoGuerra» um texto onde fala dos problemas que têm havido na blogosfera hispânica entre os dois serviços de alojamento de blogues: http://bitacoras.net e o http://bitacoras.com. A dica deve-se, claro, a Ferran Moreno.
AUTOR: Fabrizio Ferri Benedetti
LOCAL: Blogue, La Cosa Húmeda
DATA: 18 de Outubro de 2003
El Arte de la BlogoGuerra
En estos oscuros y sórdidos meses de batallas fratricidas, donde la sangre virtual ha bañado los sagrados templos y plazas de las ciudades Blogosféricas, en los que ejércitos de escribientes han luchado post a post por el dominio, y en los que la formación de nuevos bandos y facciones estaba al orden del día, conviene que rescatemos del pasado antiguas perlas de sabiduría estratégica.
Inspirándose en la antigua obra bimilenaria de Sun Tzu, el monje Al Gnon ha compilado una pequeña obra de cabecera para los generales y comandantes de los ejércitos blogosféricos: "El Arte de la BlogoGuerra", en el que se detalla, con gran acopio de sabiduría, qué acción es menester que lleve a cabo el líder de un blog en el campo de batalla virtual, para salir airoso y victorioso de él, y asegurar así a la historia memorables hazañas en HTML.
Por razones de espacio ofreceremos, a los lectores aquí reunidos, una selección de frases del venerable libro que son apropiadas y significativas, pues no es nuestra voluntad aumentar el tedio de los señores de la guerra en vano, ni ocupar en exceso su preciado tiempo, que es poco y difícil de conservar. Procedamos pues por la primera frase, a modo de introducción:
La acción de un blog es de importancia vital para un bloguero; constituye la base de la vida y de la muerte, el camino de la fama y de la autoestima; por ello, es absolutamente indispensable examinarla.
Por lo tanto, calcula sirviéndote de los cinco elementos, y utiliza estos criterios para comparar y establecer cuál es la situación. Los cinco elementos son: la plantilla, los comentarios, las visitas, los enlaces y la comunidad.
Importantísimo es examinar tales elementos: de ellos depende el éxito de una blogoguerra, y el de sus blogs. Si uno de ellos falla, será importante ponerle un remedio, acudiendo a amigos y aliados, y cuidando que los enemigos no tengan posibilidad alguna de intromisión.
Utiliza la humildad para que se muestren arrogantes. Cánsalos haciendo una pausa en tu blog e introduce la división entre ellos. Comenta cuando estén desprevenidos y publica tus posts cuando no se lo esperen.
Cuando estés en medio de la blogobatalla, incluso aunque estés ganando, continuar mucho tiempo en ella desanimará a tu inspiración y embotará tus dedos; si estás asediando una comunidad de blogs, agotarás tus ideas. Si mantienes a tus posts durante mucho tiempo en campaña, tus suministros serán insuficientes.
Así pues, lo importante en una blogo-guerra es la victoria, y no la persistencia. La persistencia no es beneficiosa. Una polémica es como el fuego: si no lo apagas, se consumirá por sí mismo.
¡Grande es el conocimiento de Sun Tzu! ¿Qué nos dice acerca de la batalla en sí? ¿Qué nos conviene hacer cuando nos hallemos en una sonora contienda de posts y comentarios? El maestro tiene la respuesta para todo. Al principio de la batalla, se nos dice lo siguiente:
Antiguamente, los blogueros expertos se hacían a sí mismos invencibles en primer lugar, y después aguardaban a descubrir la vulnerabilidad de sus adversarios.
La invencibilidad está en el blog de uno mismo, la vulnerabilidad, en el adversario. Por esto, los blogueros expertos pueden ser invencibles, pero no pueden hacer que el blog de sus adversarios sea vulnerable. Por esto es por lo que se dice que la victoria puede ser percibida, pero no fabricada.
Y a continuación, en la batalla propiamente dicha, vacío y lleno son los conceptos que deben caracterizar en todo momento nuestro bregar, para que nuestro blog pueda enfrentarse fácilmente al adversario y vencer ante los ojos de las comunidades, hostings y directorios del ciberespacio:
Lo que impulsa a los adversarios a comentar en tu blog por propia decisión es la perspectiva de ganar. Lo que desanima los adversarios de comentar es la probabilidad de sufrir criticas.
Sé extremadamente sutil, hasta el punto de no tener forma. Sé completamente misterioso, hasta el punto de ser silencioso. De este modo podrás dirigir los comentarios de tus adversarios. Para avanzar sin encontrar resistencia, arremete por sus posts flacos. Para retirarte de manera esquiva, comenta más rápido que ellos.
Utilizar el orden para enfrentarse al desorden, utilizar la calma para enfrentarse con los que se agitan, esto es dominar el corazón. No persigas a los enemigos cuando finjan retirarse del blog, ni ataques blogueros expertos.
En caso de victoria, ¿qué se nos recomienda hacer? ¿Qué tipo de variables debe tomar en cuenta el blogo-general para controlar su blog y su red de enlaces y comentarios?
Hay que dejar una salida a un blog rodeado. No presiones a un bloguero desesperado. No detengas a ningún bloguero que esté en camino a su comunidad de blogs.
No permitas instalar un blog en hosting difícil. No dejes que se establezcan enlaces con las fronteras. No permanezcas en un servidor árido ni aislado.
Así pues, la norma general de los conflictos blogueros consiste en no contar con que el enemigo no comente, sino confiar en tener los medios de enfrentarse a él; no contar con que el adversario no ataque, sino confiar en postear lo que no puede ser atacado.
Así habló el sabio Sun Tzu al maestro Al Gnon, que ofrece sin compromiso tales máximas para que los blogo-comandantes del futuro puedan comportarse eficazmente en los blogo-conflictos del mañana.
Paulo Querido (O Vento Lá Fora) responde ao texto de António Guerreiro. No quadro da sua resposta a alguns dos argumentos avançados por António Guerreiro, Paulo Querido produz algumas reflexões de interesse sobre a blogosfera.
AUTOR: Paulo Querido
LOCAL: Blogue, O Vento Lá Fora
DATA: 18 de Outubro de 2003
Com a devida vénia ao Metablogue, que se estreou finalmente, respigo duas ou três passagens de um texto publicado no Expresso da autoria de António Guerreiro, num caderno (Actual) diferente do meu (Única).
António Guerreiro vê os blogs de fora. É engraçado (e merece a reflexão dos bloggers mais preocupados com o meio) verificar como as opiniões de fora são tão ínfimas, tão redutoras, tão -- e que me desculpe o termo o meu colega de jornal pois não lhe é particularmente dirigido -- analfabetas.
A minha primeira reacção é infantil: deitar a língua de fora :P
Mas vamos lá usar esta «jubilosa catástrofe» chamada blog para comentar A.G. ... É um texto baita comprido. Daqueles que não cabem num jornal :-)
Citação: «O facto curioso, em Portugal, é que o interesse pelos blogs não foi suscitado, em primeiro lugar, por terem acedido à livre publicação indivíduos e grupos que dela estavam excluídos, mas por terem entrado na «blogosfera» (numa posição de domínio, pois aqui também se criaram hierarquias) nomes que, regularmente ou de maneira esporádica, escrevem nos jornais ou são convidados pelas televisões. Este é um sinal eloquente de que há hoje uma corrida ao espaço público mediático (sintoma de uma perda da efectualidade da cultura e das instituições do saber) e de que este não é capaz de se estruturar de outra maneira que não seja segundo o regime do mandarinato».
Reflexão: Começo pelo fim para concordar, acenando obedientemente com a cabeça para cima e para baixo, com a história do regime de mandarinato. Este (ainda) está inculcado na cultura dos portugueses de todas as idades, credos e blogs. Suspeito que os blogs possam acelerar o processo de reconversão cultural e afastar os portugueses, ou pelo menos uma jubilosa fatia deles, do regime mediático do mandarinato (podem usar a expressão ditatorial que não me importo de todo.) Além de suspeitar, suspiro -- e no suspiro sei que não estou sozinho: há mais gente que deseja um poovo mais emancipado, mais liberto, mais longe daz vozes e cores predominantes na área pública, sendo que a área pública, para A.G. como para a maioria, é exclusivamente a área que os media portugueses publicam.
[O sublinhado é um aparte: esquece A.G., porque não vive a blogosfera, que há outras realidades mediáticas além da portuguesa. Seria fastidioso enumerar aqui os media que, em especial nos EUA mas não só, já aproveitam o canal-blog, o formato-blog e sobretudo a ferramenta-blog como complementos directos dos seus títulos, como forma de democratizar o acesso à informação interna do seu próprio Poder, como extensão não espartilhável das suas Redacções e como alimento da pesquisa jornalística.]
Indo mais acima na citação, A.G. cai no erro fatal. Fala do interesse suscitado não pelos excluídos mas pelos nomes já conhecidos. É uma visão míope (antiga?, ultrapassada?) da realidade. Esse não é o interesse popular, é o interesse dos media, atraiçoados pelas suas regras. Borbulhasse, como borbulha, a blogosfera SEM Pacheco Pereira e os blogs não tinham chegado aos jornais porque... não havia notícia!
[Na mais pura lógica tablóide, notícia é aquilo onde está uma figura conhecida. Seria o escândalo Casa Pia um escândalo se envolvidos fossem cidadãos anónimos em vez de cavalheiros habitantes das colunas e do prime-time?]
Tivéssemos um país com uma cultura menos de «mandarinato» e a prosa de A.G. seria um pouco menos que lixo. Mas como não temos, vai haver muito leitor do "meu" jornal a concordar com ele... Sem contraponto de factos e opiniões (A.G. emite opiniões e não fornece um único facto), ficar-se-á o vulgar leitor de jornais mais uma vez encurralado no canto, debatendo-se e temendo a (mais uma?) «catástrofe».
A corrida ao espaço público mediático tem perigos, e seria injusto não reconhecer a A.G. razão nesse ponto. O que ele esquece (omite) é que a Internet, devido à sua espantosa velocidade, tem mecanismos de auto-defesa e auto-correcção capazes de alterar o rumo à locomotiva em movimento que é a blogsfera. Até um pessimista por natureza e vocação, como eu, é capaz de dar o benefício da dúvida a um recém-nascido cheio de potencial, como é a blogsfera.
[Curiosamente mecanismos esses ausentes do espaço mediático não-totalmente-público, dominado por elites económicas, baronatos políticos e sabores editoriais que são os jornais, TV e rádio. Desde a liberalização selvática, deixada ao sabor do "mercado" nos anos 80, que a liberdade de Imprensa em Portugal se tornou um mito, cuidadosamente alimentado e pouco analisado pelos media]
Citação: «Bastante representativo é um dos blogs mais citados e considerado geralmente como um modelo: o «Abrupto» (www.abrupto.blogspot.com), de José Pacheco Pereira. As posições críticas de J.P.P. em relação aos jornais são bem conhecidas. No entanto, ele esbarra geralmente no facto de o seu estatuto e prestígio se alimentarem exactamente do sistema mediático que critica - um sistema que vive da lógica do vedetismo, da omnipresença e da usurpação. Aquilo que Pacheco Pereira representa no território dominante dos clérigos da opinião é uma criação específica do nosso espaço público, não poderia existir senão em Portugal. À primeira vista, o seu blog parece uma tentativa de «desjornalizar» a sua escrita e de entrar no campo mais afável do discurso cultural e do apontamento pessoal. Mas há algo de mais jornalístico, nos nossos dias, do que estas deambulações sócio-político-culturais, em formato magazinesco, servidas por um político? Não há.».
Reflexão: A.G., como praticamente toda a Imprensa, ainda não percebeu. A blogosfera gosta (ou não) de Pacheco Pereira por várias razões, e sim senhor, uma delas -- a que faz defendê-lo -- é o reconhecimento de que foi por ele que os blogs adquiriram maior visibilidade e impacto na sociedade portuguesa. Toda a gente gosta de ver o seu trabalho (má palavra; mas agora falta-me outra; obra também é excessivo) levado além fronteiras.
Mas não é só por isso, evidentemente, que JPP é citado. Eu, por exemplo, tenho-o na minha lista porque admiro a humildade e a forma escorreita como Pacheco Pereira bloga e gosto da sua prosa escorrida sobre lugares, hábitos e exercícios democráticos (ele dá voz aos leitores). JPP não usa o seu Abrupto como um instrumento político, embora por vezes o faça (está no seu amplo direito!). JPP bloga como toda a gente: fala de si, das suas leituras, dos seus gostos musicais, das suas viagens. Em suma: partilha. A partilha de conhecimento, mais que a de informação, é o coração dos blogs. O resto é presunção.
Reduzir os blogs a um exercício de fait-divers é escarninho.
[como se os jornais -- e o próprio Expresso é disso exemplo tendo vindo a aligeirar-se e a amagazinar-se na última década! -- não fossem nesta altura fundos repositórios de assuntos requentados, de lana caprina, de informação inútil sobre gente inútil com vestimentas inúteis e cabeças inúteis. A razão de o vestuto Expresso se aligeirar é de resto a prova do efeito perverso da tabloidização do espaço mediático: Portugal não é o Mundo, o Português não é língua para aguentar, com as vendas, o rigor jornalístico de uma The Economist. A jogada é inteligente pois é de sobrevivência que se trata.]
Com a última frase A.G. (e com ele todo o castelo da Imprensa que, por desconhecimento de causa, treme de medo dos blogs -- catástrofe!!) atira o tapete. Se não há nada de mais jornalístico do que um político a deambular pelos seus temas pessoais em jeito de crónica, então os media estão mesmo fritos...
Ao contrário de A.G. e de muitos camaradas (termo em desuso: consulte a enciclopédia) de profissão não vivo fascinado pelos blogs como o mosquito pela lâmpada. [Quando muito, aceito que vivo de alguma forma fascinado nos blogs, o que faz muita diferença.]
Os blogs são na essência a forma de publicação pessoal. Detém um poder colossal que lhes provém das tecnologias várias que os corporizam, transmitem, interligam. É natural [é desejável!] que interfiram na esfera mediática -- mas essa interferência é um curto episódio na régua temporal com que temos de analisar a evolução da comunicação. Um episódio naturalmente mediático ;-) que faz correr mais tinta ;-) que bits.
Repito, os blogs são na essência a forma de publicação pessoal. Ligam as pessoas. A elas próprias (o meu blog é a minha memória, cada vez mais a minha agenda e até o meu ponto de encontro com amigos, conhecidos e leitores). Umas às outras (unimo-mos em círculos de interesses, lemo-nos avidamente, curiosos pela partilha de emoções, de livros, de poemas, de ideias, de imagens, de descobertas). Ao mundo (graças ao hipertexto viajamos pela novidade à velocidade da luz).
Centremo-nos neste último ponto. A ligação ao mundo, antigamente feita quase em exclusivo através de mediadores (os media....) cuja profissão consistia em descobrir as novidades para no-las servirem. Aí sim, há alguma libertação das massas relativamente aos grupos editoriais. Confesso que a vejo com alegria, à libertação... Hoje não preciso esperar por sábado para saber o que aconteceu -- saber, meditar, contextualizar, interligar -- nesta e naquela área científica, política, social.
Que digo eu? Hoje não preciso esperar pelo telejornal das 22 para saber que Paulo Pedroso foi libertado, mais os pormenores e as implicações da libertação! Aliás, actualmente quando assisto ao telejornal dou comigo a pensar, mas isto são as notícias de ontem? A única novidade consiste no alinhamento do telejornal [hoje por hoje, quase o único valor acrescentado da informação televisiva é a hierarquização dos temas numa escala de valores intrinsecamente jornalística]. E não falo só de notícias: falo dos comentaristas de serviço que vão expor as correntes de opinião mais transversais à sociedade, falo do contexto (well... sobretudo da falta dele) com que se vestem os factos para a sua degustação mental.
Por último, temos o imediatismo do meio. Nos blogs tudo É à velocidade da luz. Certo? Errado. Hoje TUDO na sociedade é à velocidade da luz e pobre do desgraçado do secretário de Estado, ministro, investigador, empresário que tenha o azar de querer mostrar obra (mesmo que da autêntica!) numa quarta-feira europeia: no dia seguinte já não é notícia! Essa lógica não é da blogosfera, é dos jornais. Esse hábito de consumo do real em cápsulas diárias é nefasto, certo, mas não culpem os blogs por ele: já cá andava...
Pelo contrário, os blogs têm memória. Enquanto o papel de jornal vai forrar caixotes, servir de cama aos sem-abrigo e embrulhar vidros antes de ser reciclado, na blogosfera as palavras ficam registadas. Há arquivo. Há memória. Há a cola do hipertexto a lembrar-nos disto e daquilo.
Se a cultura e o saber são o produto da informação digerida em doses correctas e mastigada num bolo onde a memória corrói o imediato e separa o acessório, então a blogsfera será forçosamente mais útil ao conhecimento que os media.
Onde estes passam os blogs ficam. Infinitamente mais acessíveis a quem deles precisa do que os arquivos dos jornais, fechados à sociedade e de consulta paga.
Os blogs estão mais perto dos livros que dos jornais. Essa é que é essa! [E o meu amigo Luís vai gostar de me ler ao menos uma vez na vida.] Portanto, quanto a contributo para o enriquecimento e a sabedoria, caro A.G., estamos conversados. Quanto ao resto, deixemos passar as borbulhas: são próprias da juventude.
Citação última (ele está a atirar-se ao Abrupto): «Esquecida fica a responsabilidade de interromper a conversa. Esta lei da submissão ao ruído público - e da dependência visceral que ele cria - não é senão a lógica dos «grandes redutores», dos que não conseguem pensar fora da lógica do jornalismo e da agitação política e cultural.».
Eis uma tirada falaciosa. O Abrupto é, em sim mesmo, uma «interrupção da conversa» constituindo (pelo menos eu leio-o assim) o corte de JPP com o discurso que costuma ostentar nos media (e ai!, que ele dá ao dedo e à gaganta em boa meia dúzia deles!). É no Abrupto que ele se liberta do ruído público [originando, é certo, ruídos privados: ao contrário da televisão os blogs não são intrusivos, não há obrigatoriedade nem atenção presa por mecanismos fraudulentos de alinhamento e de jogos de cores...]. Nesse sentido o Abrupto é representativo dos blogs, sem dúvida. Representa um espaço de reflexão [um tanto inflamada muitas vezes, sem dúvida, olha as borbulhas!] que não encaixa na esfera do pequeno e médio agit-prop lisboeta ou bairro-altino, nem se subordina à lógica do jornalismo desta paróquia. Faz pontaria mais além.
Convém avisar, a fechar a prosa, que não quero fazer nem a apologia dos blogs, nem a defesa do Abrupto, nem o ataque a António Guerreiro; parto do texto dele para -- desmontando algumas imprecisões próprias do desconhecimento de causa e da apressada reflexão intelectualizada, automatizada, teorizada que é apanágio dos críticos com hora de fecho e uma página vazia [e sei do que falo, também me toca...] -- dar um contributo diria profissional sobre a realidade dos blogs, essa espantosa ferramenta de edição pessoal que corre riscos de intoxicação.
Um diário é um diário, ponto final. Há diários que vale a pena ler, outros nem tanto. Onde está a novidade? Na liberdade de manter um diário multiusos, praticamente gratuito e acessível quase de borla a quem o quiser ler. No gozo de exercitar os dedos e desenferrujar os neurónios pesquisando a novidade, desenterrando o esquecido, expondo o ridículo, discorrendo sobre o acessório, aprofundando o fundamental, tudo isso em partilha com o outro, os outros, que não são sombras fugazes na pantalha nem manchas coloridas em papel de jogar fora, são pessoas que comentam, criticam, acrescentam ou subtraem. E desse gozo que se alimentam os bloggers. Um alimento antes reservado a muito, mas mesmo muito poucos.
Embora seja preciso fazer balanço para ler "Ciúme", esta longa entrada do Levante, compensará pela forma como o autor discute a questão do sentimento de integração que, virtualmente, a Blogosfera concede aos seus participantes.
Autor: NFS
Local:Blogue, Levante
Data: 18 de Setembro de 2003
Ciúmes
Sinto que ainda não me consegui integrar no universo dos blogues. Tal facto deve-se menos à falta de tempo para actualizar o meu pedacinho de exposição cibernáutica do que a um conjunto de dúvidas e preconceitos que tenho tentado identificar.
Talvez fosse importante perguntar-me pelo grau de justeza da palavra integrar. O que significará aqui, neste espaço (sem espaço?), uma tentativa de integração? Será esta necessária e inevitável?
Não consigo deixar de adoptar um certo cepticismo em relação às novas formas de comunicação que se vão construindo, articulando por aí. Vício filosófico, porventura, incapacidade de lidar com o reino do virtual (o único "real" que existe) que toda a filosofia, temerosa e periclitante, não consegue admitir - porque aí se joga a perda de fundamentos, a dispersão dos rostos e a disseminação dos conceitos. Será isto? Seria isto que o Quim, fora do seu ar e sob outros ventos, face a face, realmente me tentava dizer.
Talvez, mas até aí tudo bem, até aí concedo a minha fraqueza, esta tendência para a posse e a reunião, este medo de me deixar perder no escuro de uma casa sem alicerces. Mas a (minha) filosofia, e aqui começo a discordar, não é nostálgica, é ciumenta. Não pretende recuperar um real que se perdeu nos tentáculos técnico-científicos do cartesianismo (a internet e a blogosfera são alguns desses tentáculos, nascidos do método, da aplicação técnica dos conhecimentos, do conjunto de instalações e aparelhos que surgem encadeados orgânica e "naturalmente" no mundo. É interessante verificar como a certeza científica e a sua aplicação técnica foram capazes de produzir e encadear produtos que destroem os fundamentos dessa certeza e aplicação), quer antes a posse da dispersão para, enfim, a reunir até ao limite do possível. Sabermo-nos tocados pelo limite é afinal o mais difícil (merda, estou cheio de Derrida!).
Nas Meditações sobre Filosofia Primeira Descartes procurava, entre outras coisas, verificar a concordância entre as imagens que o homem possui no seu interior e a realidade que está lá fora, no exterior. Com brilhantes artifícios o filósofo alcança o seu objectivo e acerca-se da tão afamada certeza cartesiana. Esta clássica questão da filosofia do conhecimento, que Descartes colocou sob um novo prisma, enraizou-se de uma forma tão profunda na nossa cultura que é hoje difícil deixarmos de falar numa realidade exterior. Aparentemente, ela existe: o som que ouço corresponde ao carro que passa lá fora, fecho os olhos e tenho a certeza de um monitor com a página do blogger à minha frente, a televisão dá-nos constantemente a distância do mundo que existe (e daqui de abrem as fobias da manipulação televisiva). Sempre lá fora, no exterior de nós. Mas eis que, na própria filosofia e nos mais diversos campos da cultura ocidental (aquela que mais se preocupa com estas questões de concordância, já que outras culturas pura e simplesmente vivem as coisas...) as rupturas começam a acontecer. E se os alicerces da nossa casa estivessem assentes na subjectividade e na insegurança? E se tudo não passasse de uma ilusão? A pouco a pouco vemos que aquilo que nos rodeia não passa de uma complexa construção, móvel, sem um ponto fixo; um “pós-moderno” reino do virtual - expressão que odeio usar mas que, neste caso específico, parece preencher o espaço aberto pela ideia.
Mas como relacionar isto com o meu problema de integração?
Nem tudo é virtual e volátil neste reino. Aparentemente a integração deveria ser fácil, sem barreiras. Os blogues são das formas de expressão mais democráticas e livres do planeta. Só deveriam ser necessários uma forma de acesso à internet e algo para escrever. O resto seriam construções de teóricos. No entanto, a verdade é que as construções são próprias dos sistemas ditos virtuais e sem centro real. E estas construções são aglutinadoras e têm tendência a basear-se em centros de reunião e distribuição. Não sei se é isto que está a acontecer com a blogosfera, mas acho que não podemos negar o poder das relações no seu interior, pois só assim consigo perceber as minhas reticências. Se a blogosfera não é absolutamente virtual e aberta, tal não se deve ao facto de sabermos existir alguém por detrás dos posts (e dessa forma sentirmos um elemento real), mas à simples constatação de que há laços reais, na sua maioria involuntários e inconscientes: ideológicos, regionais, profissionais, temáticos. Não me quero integrar, quero des-integrar, pois é aí, na nudez dos laços, que está o corpo impuro desta forma de comunicação. E eu adoro o desafio de dissecar corpos pecadores, mesmo quando estou errado e acabo por esquartejar anjos.
Não sou nostálgico, não quero o real, quero os laços e as relações que parecem flutuar no ar.
Ao escrevermos estamos já a reunir, a querer a posse, a evitar a fuga. Escrever: o ciúme.
Mais um metablogue trazido por Ferran Moreno Lanza, de un que passava, desta vez recolhido em Desde mi ventana, uma entrada em que a autora, a partir de um problema no seu template, reflexiona sobre a sua relação com o seu blogue:
Autor:Teresa
Local: Blogue, Desde mi Ventana
Data: 5 de Setembro de 2003
viernes, septiembre 05, 2003
Cuando me cargué la plantilla el otro día, me di cuenta de lo importante que se ha convertido esta historia del blog desde aquel día de marzo en que me decidí a escribirlo, espoleada por el ejemplo de Zoldado, el que a veces escribe cartas y Bernardo, el amnésico. Esas fueron las primeras bitácoras que leí después de ver un reportaje sobre el tema en el suplemento La Luna, de El Mundo, y me pareció una idea tan buena que me lancé sin saber muy bien qué iba a contar, ni cómo, ni hasta dónde podía llegar. Cuando han pasado cinco meses desde aquello, reconozco que el rito diario de contar algo es uno de los momentos más gratificantes del día, igual que dar un paseo por las bitácoras amigas, o lanzarme a pescar alguna nueva que merezca en el torbellino siempre en aumento de las debutantes.
¿Y por qué este gustillo por escribir, cuando llevaba años haciendo un diario? Pues sencillamente porque ahora sé que alguien me escucha. Esta ventana no encontró su auténtico sentido hasta el momento en que puse el sistema de comentarios. Ese flujo de ida y vuelta, ese saberse oído, y disfrutado, ese mirar hacia fuera y dejar que los demás también fisguen lo que hay dentro... caray, es de lo mejorcito que existe. Se descubre tanto y tan bueno, que de otro modo, nunca llegaría hasta nosotros... Gente que merece la pena, algunas personas que, poquito a poco, están terminando por convertirse en amigos, y de los de veras. Una vía de doble sentido en la que, sí, puedes encontrarte a kamikazes indeseables, cretinos absolutos y auténticos pirados, pero también descubrir a gente con sentimientos tan auténticos que a veces no puedes evitar el escalofrío. Gente con la que sufres cuando ellos lo hacen, con la que te alegras cuando las cosas les van bien, con la que esperas mordiéndote las uñas cuando andan pendientes de una respuesta importante para sus vidas... Gente que parece que te había estado esperando, porque estaba ahí, ya no lo dudas, para terminar encontrándose contigo...
¡Vaya parrafada “metablogística”! Pero tengo un atenuante: el trauma del template destrozado me ha hecho pensar mucho. (.../...)
Através de Ferran Moreno Lanza, de un que passava, que assim se estreia como colaborador do Metablogue, chega-nos o primeiro metablogue em lingua castelhana, Bitácoras (um dos termos utilizados para designar os blogues na blogosfera espanhola), recolhido no Blogue Megapixel.
Autor: Mafer
Local: Blogue, Megapixel
Data: 14 de Agosto de 2003
Bitácoras
La primera vez que conocí el término weblog se remonta al 28 de diciembre de 2002... Reconozco que bastante tarde para lo enterado que estaba el mundo de esta nueva forma de comunicarnos, pero en fin, ese día me llegó a mi buzón de correos una historia muy graciosa sobre "la navidad en Venezuela" y pregunté a quien me lo había enviado, la fuente. Esto fue lo que recibí:
"la encontré en una de esas páginas que llaman weblogs, son algo así como diarios personales y llegué a ella por pura serendipitividad."
Lo asimilé como eso: una sencilla información... Al pasar el tiempo, fui consultando más y más diarios personales, preguntándome que ganaría la gente escribiendo.
No existe mayor censura que la autoimpuesta, una bitácora tan solo se resume en una experiencia donde puedes contribuir a que otros internautas aprendan sobre algo que te apasiona, conocer distintos puntos de vista, técnicas que desconocías; en otras palabras, estar en contacto con gente que te visita desde lugares muy lejanos.
¿serán para siempre? Están de moda, y eso no se discute. Google acaba de adquirir el mayor proveedor de bitácoras en la red. Dentro de algunos meses, todos los grandes portales apostarán por este servicio, tal y como ha ocurrido con cuentas de correo, álbumes de fotos o directorios telefónicos.
Y a ti: ¿qué te motivó a abrir tu bitácora? (si la tienes claro está) Me mantuve escéptica a la idea de tener una por cuestiones de tiempo (y no es precisamente que ahora tenga demasiado). También porque necesitaba buscar un tema. Cuando las acciones las hacemos porque están de moda, no tardaremos en abandonarlas...
No creo ser parte del fenómeno de los weblogs, a titulo personal, considero que postear es una forma de exhibicionismo o por el contrario, simples deseos de compartir lo que sabes. Aunque es totalmente opuesto lo que acabo de describir, yo me apunto por creer que estoy aquí, porque quizás haya un estudiante perdido en la web preguntando como diablos se divide una red, o algo similar (deduzco que son intenciones proteccionistas, para que nadie se enfrente a la frustración que supone no encontrar lo que busca)... Me motiva pensar que soy útil, pero no para contar mis dolencias, o mis sentimientos, para eso, será mejor que dejemos el ordenador a un lado. (.../...)
No Cruzes Canhoto foi publicada uma nota sobre a contra-blogomania: a moda de ser contra os blogues. O texto intitula-se «Enxovalhanço Merecido?».
Autor: Os Canhotos
Local: Blogue, Cruzes Canhoto
Data: 2 de Setembro de 2003
Enxovalhanço Merecido?
Depois da moda dos blogues, seguiu-se inevitavelmente a moda de ser contra os blogues (crédito ao Pedro Rolo Duarte por ser o primeiro). Esta tendência diverte-me e parece-me natural. Vindo principalmente de figuras institucionais, isto é, instaladas confortavelmente no sistema e sem vontade de mudar, estas críticas parecem-me muito bom sinal.
No entanto, nunca se devem afastar as críticas de ânimo leve pois contêm sempre uns pozinhos de verdade (do mesmo modo que nunca devem ser encaradas de modo bíblico).
Os blogues podem ser apenas vistos como uma linha aberta do bitaite, um confessionário público ou uma tertúlia entre amigos e não há nada de mal nisso nem quer dizer que estes blogues sejam maus. Há blogues óptimos a mandar bocas, blogues excelentes a abordar pequenas histórias do quotidiano pessoal e blogues interessantes a conversar com outros blogues.
Mas reduzir os blogues a isto é também condená-los ao efémero e ao grupal.
Os blogues podem ser também um excelente suporte para experiências literárias que à partida os editores nunca publicariam (1, 2, 3, 4) e, o ponto que mais me interessa, podem ser uma nova forma de media.
Fareed Zakaria, da Newsweek, fez a seguinte observação a propósito:
No mundo do jornalismo, a página web pessoal ("blog") foi saudada como o carrasco dos media tradicionais. No entanto tornou-se algo de muito diferente. Longe de substituir jornais e revistas, os melhores blogues -- e os melhores são muito bons -- tornaram-se guias dos media, apontando fontes invulgares e comentando notícias conhecidas. Tornaram-se os novos mediadores para o público informado. E, embora os criadores dos blogues se vejam como democratas radicais, são na realidade uma nova elite de Tocqueville.
Num mundo em que os media estão cada vez mais murdochizados (em Portugal, PTzados), isto é concentrados nas mãos do governo ou de dois ou três ricaços, com todo o défice de liberdade de expressão e ameaça democrática que isso implica, os blogues podem ser uma fonte excepcional de cruzamento e concentração de informação, de exploração de factos menos conhecidos e refutação de notícias dúbias. Em Portugal há, infelizmente, poucos sites deste género, há o Valete Fratres (de direita), os blogues do Paulo Gorjão e mais uns poucos. A maioria são americanos, como o Instapundit (de direita), o Indymedia (de esquerda), o Slashdot (informática), o Newsfilter (bizarro) e muitos outros. São estes dois géneros que tornam os blogues importantes e a ter em conta no futuro. A importância dos blogues notou-se no caso de Raed e agora no caso dos blogues iranianos. Por muitos artigos de jornal que se escrevam a maldizê-los. J
P.S. - As críticas à escrita ou superficialidades dos blogues têm o mesmo valor que as críticas à boçalidade nos telejornais e querem dizer apenas isto: que são medias democratizados e acessíveis a todos e não dão apenas voz a alguns "esclarecidos". O resto são questões socioculturais.
55. Francisco José Viegas (Aviz) dedica mais algumas linhas à análise do mundo dos blogues.
Autor: Francisco José Viegas
Local: Blogue, Aviz
Data: 28 de Agosto de 2003
O pior que poderia acontecer aos blogs, além de elaborarmos códigos de conduta, seria determo-nos mais tempo do que o necessário nas razões que levam alguns bloggers a «encerrarem actividade». É provável que existam blogs que não resistam ao Verão ou que só existam porque há Verão, e disponibilidade, e vontade de falar. Isso dura enquanto dura. A natureza do blog é profundamente individualista — mesmo quando abriga vários individualismos. Acabam como começam, temos pena ou não, mas sabemos que ressuscitarão por aí, se ressuscitarem. O impulso que leva alguns bloggers a iniciarem actividade é precisamente o mesmo que os leva a «encerrar actividade». Alguns esgotam os seus objectivos. Alguns, outros, cansaram-se, e estão no seu direito. Outros mudam de rosto e não nos apercebemos (sim, sim). Têm uma marca de exibicionismo e de intimidade, de clarividência e de lugar-comum, de banalidade e de excepção. Tudo isso é natural. Que o Pedro, primeiro, tenha querido acabar com o Guerra e Pás e que o outro Pedro quisesse, depois, interromper o Flor de Obsessão é natural — porque as razões até estão lá inscritas (talvez mais no Guerra e Pás). Mas nada disso é dramático. Tudo isso estava escrito e inscrito, como disse.
Prevejo, de facto, que boa parte dos blogs acabem por estes dias, quando acabar o Verão, quando a vida ganhar «outro sentido» ou for necessário «regressar à vidinha». Um blog não é «um meio de comunicação social». O seu carácter flutuante diz-nos que «viver sempre também cansa», que há coisas que nascem da imensa harmonia do mundo, e que há outras que vêm do fundo da tempestade. Não interessa. Temos de ser tolerantes para com a própria natureza do blog, que é essa: existe enquanto existe.
Não sei quando acabará o Aviz. Vou escrevendo, tenho a noção de que escrever num blog é uma coisa precária (não tenho contador, não quero, não caio em tentação, não — claramente, não — acho que um blog tenha «audiência», talvez tirando o Abrupto), que somos voyeurs e objectos de voyeurismo em simultâneo. Mas há coisas que se dizem através dos blogs e há coisas que não digo através dos blogs. O que escrevo noutros lados não me impede de escrever o que escrevo no Aviz, mas não penso muito nisso. Não roubo tempo «ao outro lado» para escrever neste; nem roubo tempo «a este lado» para escrever no outro. Cada coisa — cada suporte — tem a sua natureza, mesmo que não a saiba identificar. No Aviz escrevo sobre a noite, sobre a insónia, sobre a minha fé e as minhas saudades, sobre política, sobre o que quiser, sem me importar com a opinião de Luís Delgado. Não tenho a ideia de uma «utilidade» dos textos; acho que há textos dos blogs que têm dignidade suficiente para serem publicadas em livro, numa revista, numa página de jornal; e há colunas de jornal que nunca deixaria que se publicassem no meu blog, porque nenhum preço paga aquela mediocridade, aqueles erros de gramática ou aquela falta de ideias. O mundo é um mistério, não é?
Acho que é por isso mesmo (por o mundo ser um mistério) que tenho um blog. Discuto com quem quero (e só com quem quero), discuto até onde quero (e só até onde quero), no registo mais «disponível» por que se possa optar. Provavelmente por ser assinado e se tratar de um blog público não é tão confessional como seria um «diário pessoal». Mas mesmo o carácter confessional da escrita, como se diz no Norte, «vai da pessoa». Muitas vezes, o Aviz é um texto único contra a noite, contra a insónia, contra os mosquitos que vêm com o Verão. E vai com a música que estou a ouvir.
Na generalidade, inclusive, penso que há blogs muito interessantes com que aprendi bastante — sobre literatura, sobre filosofia, sobre política. Com outros, irrito-me em silêncio porque prolongam aqui a ignorância que se detecta nas «conversas de circunstância», reproduzindo erros e omissões da imprensa generalista ou da mais alinhada. Mas por isso mesmo defendo a inexistência de qualquer código de conduta senão aquele que deriva do bom- senso — que é uma coisa muito pessoal. Desconfio daqueles que vêm educar as massas e arrebanhar multidões (acho o proselitismo muito discutível). Desconfio ainda mais daqueles que se vêem investidos da missão de «acordar consciências» para pôr toda a gente a discutir e a «debater». Aqui deixamos o que queremos e só somos julgados por isso. Acho bem que existam blogs que citem, citem, citem, que exponham as suas paixões e que escondam os seus amores. Tudo se nota, quando é escrito. Escrever profundamente é mostrar os lugares da paixão (a paixão, a divergência, o ressentimento, o amor, a delicadeza, a tranquilidade), mas só quando se quer. Muitas vezes é só insónia. Só perguntas: e a noite, o que é? — por exemplo.
Fazer de um blog mais do que isso já me parece extravagância.
54. Patrícia (Mau Feitio) tece alguns comentários sobre o mundo dos blogues, debruçando-se sobre o que considera ser o pedantismo e o pseudo-intelectualismo de alguns blogues.
Autor: Patrícia
Local: Blogue, Mau Feitio
Data: 19 de Agosto de 2003
Terça-feira, Agosto 19, 2003
Fiz uma viagem mais longa do que o habitual pelos blogs portugueses. Com mais paragens, e também estas mais longas que o costume. Não me apetece procurar adjectivos para descrever o que li. Mas sem qualquer esforço vêm-me à cabeça dois substantivos abstractos: pedantismo e pseudo-intelectualismo.
Muita filosofia de trazer por casa, muito humor «eu sou tão culto que sei fazer piadas com este tema», muitas citações (em várias línguas, porque «claro que sabe francês, se não sabe saia do meu blog, sua amostra da cultura popular!»). E muitos nomes de peso largados aqui e ali, como quem não quer a coisa. Se eu agora disser «Proust» este texto fica logo com outro ar. «Kafka». E já agora, «existencialismo de Sartre e Kierkegaard». Mais uma ou duas e o Mau Feitio já pode constar daquela elite de links que esses blogs têm em comum (devem ser uns cem, que se linkam mutuamente).
E depois quando querem mostrar ao «povo» que no fundo também são pessoas comuns... lá vem a descrição de um dia bem passado, do tipo «entretive-me com a leitura comparada de Oscar Wilde e Bernard Shaw, com a apreciação profunda de uma peça de jazz contemporâneo, um passeio pelos antiquários do Príncipe Real e um bife com ovo a cavalo no Martinho da Arcada, temperado com os fantasmas das antigas tertúlias cujos espíritos em mim se perpetuam.»