Luis (Sublinhar), evocando Dostoievsky, produz uma pequena reflexão sobre a escrita nos blogues e sua analogia com um diário. [dica de icosaedro]
Autor: "Luis"
Título: «Diário»
Meio/Local: Blogue, Sublinhar
Data: 20 de Novembro de 2003
Tema: Weblogs & Blogging.
Palavras-Chave: blog, escrever.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
Diário
Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente."
Ou seja, algo muito parecido com um blog.
Mas três meses depois ele escreve:
"Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho 10 ou 15 assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiao ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público..."
Eu, ao escrever aqui, sinto muitas vezes essa mesma artificialidade... essa mesma impossibilidade de escrever tudo...
e espero, ingenuamente, que os silêncios possam dizer o que calo... mas isso, sei-o bem, é um desejo condenado ao fracasso.
Há alguns dias Paulo Querido publicou um texto intitulado «O Que Falta à Blogosfera». Agora, Francisco José Viegas (Aviz) responde a esse texto.
Autor: Francisco José Viegas
Título: «O Que Falta à Blogosfera»
Meio/Local: Blogue, Aviz
Data: 23 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
O Que Falta à Blogosfera
O Paulo Querido publicou no seu blog um bom texto com este título. Trata, no essencial, de questões que já preocuparam por diversas vezes os blogs mais atentos ao «fenómeno» (hoje já não é fenómeno nenhum) — e é muito pertinente. Aborda, também, o «efeito pernicioso» dos blogs «mais mediáticos» — o Abrupto, o Dicionário do Diabo ou o Aviz, por exemplo — nomeadamente o seu compreensível efeito totalitário (a expressão é minha, não do Paulo — mas acho adequada à circunstância). Ora, há aí um problema que não tem a ver com o peso de um blog, com a sua influência ou a sua presença permanente, mas com a forma como é feito. Só posso falar por mim, até porque o blog é só meu. Comecei o Aviz como toda a gente: para experimentar e para ver se era possível dizer alguma coisa. Acabou por ser um diário com poucas interrupções; nunca medi audiências e o assunto pouco me interessa; tem uma circulação que desconheço (uso o netcode.pt para fazer rastreio de «referências» e não para contar visitas); é «intimista» quando me apetece, confessional quando preciso, irritado quando acontece. Ainda no meu caso — o que é estritamente pessoal, portanto, oscilando nesta fronteira do semi-público — nem sequer o faço para escrever sobre coisas «que não cabem noutro lugar» ou para «fazer exercício». Faço-o enquanto houver blogosfera, e mais nada — e enquanto tiver tempo ou precisar de escrever sobre o que me apetecer, sem agenda, sem alguém a pedir-me satisfações. Esta questão da agenda reconheço que é importante, mas não me interessa para nada; continuo a dizer que escrevo sobre o que me apetece, quando posso (ou não posso evitar), sobretudo porque não tenho e nunca tive responsabilidades políticas, mas também não reinvindico nenhuma inimputabilidade política.
A blogosfera é uma comunidade disponível, muito aceitável culturalmente, e tenho aprendido bastante com ela. Se conhecemos pessoalmente os autores de blogs, sabemos que os seus defeitos e vastas virtudes continuam; dos outros, só conhecemos os textos e o mau carácter (que transparece sempre), o que é bastante. Como em todo o lado, essa disponibilidade afecta tanto os «blogs mais mediáticos» como os absolutamente anónimos graças a essa pequena mas graciosa circunstância de não haver controle sobre o que possam dizer uns dos outros, ao contrário da televisão ou dos jornais, por exemplo.
Não me agradaria nada ver os blogs (como estes, que leio) transformados em «órgãos de comunicação social» com o peso jornalístico que lhe é atribuído muitas vezes. Mas isso é com cada um. Confesso, aliás, que os blogs menos interessantes são os que estão permanentemente dependentes da agenda dos jornais — à esquerda e à direita. Não porque acabem a falar uns para os outros, coisa que é inevitável em tudo (e não me parece mal, pelo contrário; pelo menos fala-se para alguém), mas porque a mim me interessam menos. Quando escrevo que a mim me interessam menos, isso significa, também, que sou e sempre fui contra um «estatuto editorial» da blogosfera (já escrevi aqui sobre isso), contra a limitação dos temas, contra a limitação dos tons em que se escreve. A blogosfera agrada-me também por isso, por poder ser anárquica nessa matéria e ninguém poder impor ao Pacheco Pereira que não escreva sobre a luz, o equinócio ou a filatelia, ou ao Pedro Mexia que não escreva sobre bandas pop, actrizes bonitas ou fenomenologia, ou impor ao Náufrágios que só escreva sobre barcos encontrados no fundo do mar dos Açores, ou proibir o Jorge Marmelo de escrever sobre literatura brasileira. Ninguém pode obrigar o Joel Neto a comentar o Benfica, pedir ao Contra a Corrente que não seja de Évora, ou exigir ao João M. Fernandes que seja «politicamente certinho» e que não se diverta quando quer. É como pedir-me que não me divirta sinceramente com um dos blogs de que mais gosto (e que mais invejo pelo permanente sentido de humor), o dos Marretas, por exemplo, ou alguém irritar-se por o Tiago ser protestante e o Rua da Judiaria ser judeu. Se o Alberto Gonçalves, que geralmente escreve sobre política, quiser escrever sobre aqueles dois restaurantes fantásticos de Bragança e de Mogadouro, isso é mau? E se o Avatares de um Desejo, o A Aba de Heisenberg e o Klepsydra decidirem que durante uma semana só comentam futebol? Temos polícia à porta?
Daí que, embora não concorde com as posições políticas de muitos «blogs políticos», não estou para dar lições nem para ir, a correr, recebê-las. Aliás, uma das coisas boas da blogosfera é precisamente isso: o ar ridículo que toma logo quem aparece a dar lições, a vestir-se de sacerdote, a impor uma agenda ou — vamos lá... — a aborrecer-nos com a sua infinita presciência, quase sempre gritada com a impressão de que se ganhou uma grande batalha intelectual.
Ou seja: a blogosfera também me agrada porque ninguém pode impor silêncio seja a quem for, nem pode obrigar seja quem for a falar sobre aquilo que acha que devia ser matéria para pronunciamento.
Ora, apesar do «efeito pernicioso» dos «blogs mais mediáticos», reconheço que muitos textos que me comoveram, que chamaram a minha atenção por motivos sérios ou risíveis, vêm de blogs anónimos (ou, pelo menos, de pessoas que não conheço). São, como escrevi antes, relâmpagos que iluminam a paisagem. A paisagem, nós sabemos como é: tem os seus declives, os seus rios, as suas montanhas — mas os relâmpagos não são previsíveis como a paisagem. De vez em quando descubro um blog que tem aquela frase, ou que vê aquele pormenor. Como isto não é uma batalha letal, não digo que eles estão certos — digo só que me juntei a eles, que os juntei nas minhas leituras, que me comoveram de alguma maneira. O que me basta perfeitamente. Se quiser mais, vou à biblioteca.
O resto é como na vida em geral. Não gostam? A porta está aberta nos dois sentidos. Só está cá quem quer.
Sarah Roberts publicou agora um artigo na Syllabus Magazine intitulado «Campus Communications & the Wisdom of Blogging». Nesse artigo a autora debruça-se, entre outras coisas, sobre as potencialidades dos research weblogs para a academia. Vale a pena ler (via B2OB).
Autor: Sarah Roberts
Título: «Campus Communications & the Wisdom of Blogging»
Meio/Local: Online Media, Syllabus Magazine
Data: 1 de Agosto de 2003
Tema: Blogging & Weblogs, Weblogs e Investigação
Palavras-Chave: blogging, research weblogs, edublogs.
Língua: Inglês
País de Origem: EUA
Syllabus Magazine Wed., Nov. 19, 2003
Campus Communications & the Wisdom of Blogging
Sarah Roberts
The advent of "blogging"—online journaling—has breathed new life into the Web. A contraction of the term "Web logging," blogging can best be described as a form of micropublishing. Featuring no or very low start-up costs, few basic infrastructure requirements, and ease-of-use, it has enabled users to publish their thoughts and ideas without barriers.
In a very short time, blogging has moved beyond a niche activity for the hyper-extroverted to becoming the backbone of a new Internet communications movement. Although often deeply individualized, Web logging has revitalized the idea of online communities: many blogs have moved from obscurity to having a large and devoted readership—many blogging sites enable people to link their blog to other blog clusters, based on topic and the interests of the authors.
Blogging has also transcended its first early use as a simple online diary. Enterprising alternative news outlets have expanded the concept by turning to Web logs to reach their audiences, easily bypassing mainstream corporate media. Family members use the software to keep in touch with each other. Musicians chronicle their tours for fans and press. Software developers document the development process of popular applications and solicit feedback from their user base.
Blogs in Academe
What, then, is the potential for blogs in higher education? Certainly, offering students space for creating personal content and commentary is the primary application. But the number of uses for blogs are limitless. As a tool for extending learning and encouraging communication and community, blogs are expertly designed to seamlessly integrate the endeavors of many students and faculty.
Consider the undergraduate year-abroad experience, traditionally undertaken during a student's junior year. What if students could have a place to chronicle their experiences in these different cultures and countries? A homepage for all active blogs by students abroad could be created, featuring the most recent entries and breakdowns by class, year, program, or country of study. Students could use the blogs to reflect upon their experiences, to directly address family and friends back home, or as part of an assignment. Media files in their blogs, such as images, audio or video culled from their experiences, could also be included.
Although those participating in a study abroad program become immersed in a range of different cultures, a blog site could create a sense of community among those away from home. Students might find reassurance and enjoyment in communicating with and reading chronicles of others going through the same type of experience. The nature of Web publishing means that the site would always be up-to-date, and that students would be unhindered by political borders when publishing their thoughts.
In other arenas, blogs could be used to continue particularly lively class discussions cut short by an in-class schedule. Students could further their arguments with links to other information and evidence to support their positions. The online discussion could also allow more timid members of the class or those more comfortable expressing themselves in writing another venue for joining in the discussion.
Researchers working across time zones and at different universities can use blogs to meet, update, brainstorm, and archive ideas and documents. Using a blog package's search engine, they can retrieve past postings, which might yield new analytic connections or relevance.
In the pedagogical realm, the uses of blogs are only limited by the imagination. For instance, campus writing centers could partner with academic departments and IT organizations to encourage and develop the writing skills of undergraduates. The site would likely be of interest to the greater campus community, as well, as blogs frequently produce entertaining or interesting writing from those who traditionally have not had such broad outlets for written expression.
In the classroom, a professor might document his or her personal research and allow students to follow their progress via the project's blog. Students could take an active role in following research developments, offering questions, or sparking new ideas both in the classroom and on the site. Such interaction could bridge the traditional divide between classroom instruction and research interests of faculty. Seeing firsthand how the instructor uses classroom concepts in the research could make the course material more relevant and actively engage students in the research interests of their professors.
Avoid Bogging Down in Blogs
Blogs are by their nature fairly easy to set up, with minimal risk of getting hung up in installation or application integration.
The low overhead, low-tech nature of blogs means that most every campus can put a blog site into production quickly and easily. All that is needed to get started is commonplace technology. That might be an Apache-based Web server, standard software packages (e.g. Perl) installed, and support people with rudimentary HTML knowledge. Depending on the needs of the users, the choice of blogging package, and the time and personnel that can be devoted to set-up, blog-based sites can be feature-rich, professional in appearance and easy to maintain. The best packages feature a complete solution that can be installed locally with a range of customizable options, such as calendaring systems, notifications, support for multiple authors, and syndication of content via the RSS (Really Simple Syndication) XML-based protocol.
The true overhead comes in the set-up. Once up and running, the blog site is quite self-sufficient, freeing both support staff and authors from the type of technical work that so often interferes with content development.
When considering a blog-based site as a replacement for an existing site or system, IT staff may want to introduce blogging alongside a current system to allow users to acclimate to the system. The easy integration of these systems should make the process painless, and chances are that the simplicity, accessibility and immediacy of the blogging tool will make it popular very quickly.
Toward a Blog-Powered Future
The rise of blogging suggests new ways to think about collaboration and communication in the university setting. The business and high-tech sectors have already begun to take note, with many companies already looking at how blogging might foster innovation within their organizations.
The company behind Google, for example, the premier Web search engine, recently purchased one of the most ubiquitous blog code developers, Pyra Labs, and its product, Blogger. With the purchase, Google underscored its commitment to the new medium and the company's intention to develop new search methods around blogs, their distinct link structure, and rapidly changing content.
Although relatively new, blogging is already evolving, expanding and re-inventing itself. One new approach is the knowledge log, or k-log. It is based on the idea that the modus operandi of blogs—the spontaneous transmission of ideas, analysis, knowledge—could be a valuable mechanism for preserving information for the research community. K-logs could serve as a repository to collect, organize and, later, search information that might otherwise not have been captured at all. From this, new relationships, insights, and discoveries could be drawn from the preserved data.
Other new systems, such as Wiki and projects based on it, propose allowing users to build a Web site—content and more—on the fly. In this model, an entire Web site is built with an open or blog approach, with individual users free to create and edit Web page content using any Web browser.
As blogging and blog-like site development and content management takes off, it will remain to be seen what its impact will be on institutional systems already in place. With thoughtful planning, careful monitoring, and the support of strong policies and guidelines, such systems can avoid being disruptive or threatening to publication and collaborative technologies already in place. Demand and interest in them will guide their usage, but those charged with the creation and maintenance of such systems must continue to be mindful of the power of the medium, the nature of the content, and the audience that may ultimately access it.
References
The following links contain information regarding the latest developments with blogging, some opinion pieces on blogging's importance, and examples of how blogs have been employed recently.
Blogs transcend their niche roots to become a viable tool in the business world: www.infoworld.com/article/03/02/21/08noise_1.html
www.wired.com/news/culture/0,1284,56073,00.html
Russian citizens use blogs to circumvent censorship and communicate breaking news with a personal perspective: www.wired.com/news/culture/0,1284,56073,00.html
Free codebase for Web-based journaling: http://moveabletype.org
Apple Safari developer documents the process of creating and refining the popular new Web browser in his online blog: www.mozillazine.org/weblogs/hyatt
Musician Moby chronicles his tours and thoughts in his online journal: www.moby.com/cms/viewalldiary.asp
Wiki proposes a return to the Web's roots: www.infotoday.com/searcher/apr03/mattison.shtml
Sarah Roberts (sarah.r@duke.edu) is an IT analyst and supervisor of the Multimedia Project Studio in the Academic Technology Services branch of the Office of Information Technology at Duke University.
sarah.r@duke.edu
Retomando um assunto qua já abordara num texto anterior, Paulo Querido [(o vento lá fora)] desenvolve alguns dos tópicos que aflorara previamente.
Autor: Paulo Querido
Título: «O Que Falta à Blogosfera»Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 15 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
O que falta à blogosfera
Ao contrário do que se pensou e escreveu (eu também escrevi), a entrada do Abrupto e do Aviz para a blogosfera não trouxe afinal a emancipação dessa mesma blogosfera. É inegável que a veio enriquecer do ponto de vista qualitativo (trata-se de dois autores de bom nível), é inegável que mediatizou os blogs (o que também tem efeitos perversos, como agora se nota), aparentemente chamaram mais autores -- e digo aparentemente porque hoje tenho dúvidas sobre o que teria acontecido SEM eles.
Tais blogs "de referência" têm tido até sobretudo um efeito pernicioso sobre a blogsfera, sobre a rede, contribuindo para a "adormecer" e cristalizar (falo disso mais adiante). Sem qualquer tipo de desprimor para os respectivos autores, que prezo e admiro; o assunto não passa directamente por eles.
Ao contrário do que temos por adquirido, a sua vinda não foi o rastilho para a blogsfera se assumir como uma rede alternativa de informação e opinião. Na verdade, a blogsfera não existe: o que existe são pequenos, muito pequenos círculos de blogs que se referenciam uns aos outros horizontalmente, havendo muito poucos blogs de um círculo que sejam referenciados noutro, verticalmente. As excepções verticais contam-se pelos dedos: além do Abrupto, é o Pedro, o João e... hum? não me ocorre agora mais nenhum.
As razões disto são complexas e não se ficam pelos blogs. Há dois factores externos que MUITO contribuem para a não-existência de uma rede de informação/opinião em Português. Em duas palavras, são eles a absoluta e absurda ignorância dos media portugueses face às novas tecnologias de interligação digital e a ausência de um portal nacional de referenciação, como o Blogdex ou o Technorati.
[Os meus esforços no weblog.com.pt são claramente insuficientes: nem se faz por hobby, nem se faz sem recurso a programadores competentes (eu não sou programador, quanto mais competente), nem se faz sem uma estratégia pensada por uma equipa (recordo que o weblog.com.pt técnica e estrategicamente é... eu, uma só pessoa, manifestamente pouco para a ambição de um tal projecto, estou condenado a colocar as dúvidas ao espelho e a obter respostas de algum dos meus heterónimos... um processo fastidioso e frustrante).]
Um exemplo actual: os acontecimentos com os jornalistas portugueses em funções no Iraque. Se quisermos mergulhar no assunto temos de andar a vasculhar tanto os sites informativos como os blogs, um por um. Uma perda de tempo incompatível com os actuais ritmos de assimilação da realidade. Não há um centro nevrálgico onde me possa dirigir para ver logo o peso relativo do assunto -- que é imenso nestes dias, penso aliás que será o tema dominante na arena mediática global (Imprensa e blogs) desde sexta-feira passada até provavelmente domingo.
Mas como posso eu provar (ou desmentir) esta minha teoria? Não tenho ferramentas. Não há rede. Existem apenas pontos suspensos no espaço digital. Demasiados pontos para poderem, em tempo útil, ser verificados um por um. Não temos forma de avaliar que temas dominam essa mesma arena (excepto, naturalmente, a vasculhação manual, a consulta de centenas de páginas para apurar os links e depois redigir uma página sobre o tema; impensável). E nisso a blogosfera está atrasada. É por isso que digo que não há uma blogosfera: há um conjunto alargado de blogs mas não estão em rede.
Bastava que a TSF, o Público, a SIC e o DN (para citar apenas quatro) tivessem índices RSS/XML/RDF e que os blogueiros tivessem crescido um pouco tecnicamente (era a isso que me referia quando falava de amadurecimento no outro texto) para que, calmamente, com um único clique eu poder ter uma ideia muito clara do peso relativo do tema na actualidade informativa/opinativa de Portugal.
Voltando aos blogs "de referência" e aos seus efeitos perniciosos. Por um lado, cristalizaram o who's who. A par do Gato Fedorento, do Pipi e dos Marretas, dominam a lista dos inbound links. Um fenómeno já estudado, aliás. Neste momento há pessoas (a começar pelo autor do Technorati e passando por outros membros proeminentes da blogosphere) a pensar o assunto e em formas de quebrar o cristal permitindo o acesso de novos blogs aos tops.
Por outro, na ausência de contrapontos (como o sistema de avaliação em contínuo dos temas predominantes que já falei acima) a tendência dos leitores é para considerarem os "de referência" como autoridades opinativas em toda e qualquer matéria. A realidade é aquilo de que eles decidirem falar. O efeito disto nas massas -- e digo massas porque há evidentemente gente que não lê blogs da mesma forma que consome jornais e televisão, mas a maioria tem dos blogs essa visão estreita PRECISAMENTE POR CAUSA DO MEDIATISMO DOS BLOGS DE REFERÊNCIA -- é absolutamente contrário ao esperado (desejável?) de um meio dito democrático.
A democraticidade de acesso que os blogs nos trouxeram permite efectivamente a emissão de MAIS correntes de opinião do que as disponíveis na esfera mediática tout court (sem blogs, só Imprensa), onde não passam de três ou quatro em perfeita união com o espectro político-partidário e a este subordinadas. Na blogosfera há dezenas de correntes disponíveis.
Porém, e paradoxalmente, isto não veio impedir que continuemos por enquanto a viver uma ditadura opinativa reflexa na blogsfera. A ausência de circuitos que liguem os nós da rede obriga os leitores a dirigirem-se directamente aos nós -- e tendencialmente os nós proeminentes obtém mais visibilidade.
Próximos capítulos: a tentativa de construção de rede dos "de direita" e porque falhou quase rotundamente; o caso espanhol; os blogs de escritores.
PS: este texto (e as sequelas que hão-de vir) surge inspirado / encorajado pelos comentários suscitados pelo meu desabafo aqui. Outro texto recomendado para a compreensão do assunto é Blogs: o poder ao indivíduo, publicado inicialmente no Expresso.
Chris Shipley (Chris Shipley Group), colunista do Wisconsin Technology Network, produziu um texto intitulado «The Blog Nation». Nesse artigo produz algumas observações e considerações interessantes sobre os blogues e o blogging.
Autor: Chris Shipley
Título: «The Blog Nation»
Meio/Local: Online Media, Wisconsin Technology Network
Data: 12 de Novembro de 2003
Tema: Psico-Antropo-Sociologia do Blogging
Palavras-Chave: weblogs, blogging, desktop publishing, technology.
Língua: Inglês
País de Origem: EUA
The Blog Nation
I have resisted the urge to write about weblogs - until now. Truth be told - and probably something a so-called trend-spotter shouldn't admit - I'm not much for bandwagons. If everyone is going right, I'll move left just to avoid the crowd.
I confess that my first take on blogging was that it was just another technology-enabled fad. Any fool with an opinion could create a blog so that any other fool could read it. Of course, there was, initially, a bit of a technical hurdle so you knew that the blogging fool had some technical chops at least. Sounds a lot like the early days of Web publishing, the early days of desktop publishing, no doubt the early days of the printing press.
It is true that there are thousands of blogs scattered across the internet. It is also true that the top 100 blogs receive about 99 percent of all blog readership. And just like personal Web pages a half dozen years ago, there are thousands of abandoned blogs, posted and forgotten, even by their authors.
But also like Web pages, blogging will have a profound impact that is not initially evident. And that is why it's time to write about blog media.
To be sure, there is a faddish element to blogging. Does the world really care about the minutia of anyone's daily life? Will everyone need a blog the way they need a cell phone and email account? Certainly not.
Yet every new medium spawns a new generation of visionary publishers who see the medium for its unique attributes and find ways to exploit those attributes in a manner that re-invents and re-invigorates old-world publishing. (And perhaps we're most lucky that for once it appears that it is not pornographers who are taking the lead in the brave new publishing frontier.)
Blogging may be the first truly disintermediated, widely distributed and democratic publishing medium. Because blog media is low- or no-cost, there is no barrier to becoming a blog publisher. Indeed, anyone can create a blog. Whether anyone else reads it is another matter, but it is at this point where the reader, rather than writer/publisher, is truly empowered. In print or even online publishing, publishers assume their access to the printing press (physical or digital) washes them in journalistic integrity such that they can say to the reader,
"Trust me," without necessarily earning that trust. As readers, we are trained that the media establishment is legit, that they more or less print truths. That trust relationship is turned on its ear in blog media. The reader who returns again and again to the source says to the publisher, "I trust you." Breech that trust, and the feedback loop of comments and referring links and the like will relegate your blog to the long, long list of the unread. Credibility, point of view, integrity are the lifeblood of the blogger.
For this reason, exactly, it is more than probable that bloggers will become the most influential commentators on all aspects of business and society. They can publish quickly to loyal and trusting readers. The blogger's perspective will carry tremendous weight, just as the venerable New York Times or - in our industry - PC Magazine do with their readership. And just as savvy product marketers learned to court the favor of journalists in other media, they must learn to reach out to bloggers who will become the king makers of the future.
As for myself, I resisted creating a blog, though I was often encouraged to do so. After all, I write this newsletter, read by thousands of people each week and often excerpted and syndicated for countless others. Why do I need a blog? Two reasons: frequency and breadth.
The frequency issue is perhaps not what you imagine. It's not that having a blog enables me to publish more often, but rather than I can publish in the moment. I can post when I am most engaged with a new idea, captivated by some insight or issue. Is the frequency daily, hourly, monthly? It doesn't matter so much when, but at what point - the point of inspiration.
My blog also lets me explore a breadth of topics that are tangential to the issues that you, dear reader, expect to be the purview of DEMOletter. If I wrote a column here about local high school football - as I am doing for my blog - you'd no doubt look for the unsubscribe link at the bottom of this newsletter. No, you expect me to write about technology, products, and the impact these have on our business (primarily) and personal lives.
So I write two blogs these days. One lets me riff on technology's greater social implications. The other allows me to give my quick takes on new products, something that I don't do often enough in this column. (You can find these blogs from my Web site at http://www.cshipley.com/.)
Paulo Querido [(o vento lá fora)], acaba de escrever um texto onde se reporta ao "estado da nação" blogosférica. Para tal, faz uma comparação com a realidade norte-americana. O texto intitula-se «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera».
Autor: Paulo Querido
Título: «Falta Qualquer Coisa à Blogosfera»
Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 14 de Novembro de 2003: 23:34
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
Falta qualquer coisa à blogosfera
Dou uma volta pelos blogs que visito menos: a chamada blogosfera, que eu gosto de chamar umbigosfera. A voltinha pelas vacas sagradas, Mexia, Lomba, Pereira, Viegas, Barnabé, Esquerda etc, estão a ver?
Há semanas que não fazia a voltinha saloia. O pouco tempo que me sobra, tenho-o investido na blogosphere.
Conclusão da voltinha: o Mexia está, felizmente, cada vez mais na mesma (a dele, que é boa), o Lomba e o Barnabé picaram-se mutuamente,eu gosto sempre de uma boa polémica e esta é... boa, embora já tenha visto melhor de ambos [o picanço visto de fora], os outros está tudo cada vez mais na mesma. Quem leia o pelotão da frente fica um bocado naquela de que não existe pelotão de trás.
A blogosfera está cristalizada. O tempo parece ter parado em torno dos umbigos do costume. Quem leia, parece que não se passa mais nada, que não há blogues novos, entusiasmantes, ideias frescas, gente engraçada.
Já a blogosphere não. Mexe activamente. Nos EUA blogar é um bocado mais do que escrever. É manter um blog. É cuidar dele como quem cuida do vestuário. É estar a par. É fazer parte. É não perder a onda.
Acho que está a faltar à blogosfera gente mais interessada na ferramenta e mais disponível para colaborar na rede. Os blogs fazem (mais) sentido quando são uma rede. Só uma rede é uma coisa viva. Um conjunto de páginas, por muito bem escritas quer estejam, não constituem uma rede. Sem se interligarem estão mortas.
Mas isto sou eu que acho.
"Segismundo", do Albergue dos Danados, produziu uma pequena entrada onde apresenta mais uma contribuição para uma definição daquilo que é um blog.
Autor: "Segismundo"
Título: «Um blog é»
Meio/Local: Blogue, Albergue dos Danados
Data: 30 de Outubro de 2003
Tema: Psico-Antropo-Sociologia do Blogging
Palavras-Chave: blog, solidão.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
Um blog é
Um blog tende a ser um expositor de solidão. Pode ser uma solidão fingida, ensaiada, simulada, negada, mas é, sempre, uma solidão, uma solidão projectada, projectada para os outros, uma solidão publicitada. Reconhecida pelos outros, essa solidão como que se desintegra, sem, no entanto, se desintegrar de facto. Começa aqui a ilusão da comunidade. E muitos caem nela. Como quem cai numa rede. Porque é reticular e não comunitária a plataforma onde as solidões, expressas nos blogs, se encontram. O engano é uma constante vital.
Na sua entrada "BLOG IS A BLOG IS A BLOG", Alexandre Andrade de umbloguesobrekleist esboça uma crítica a uma certa febre classificativa que, vinda do lado de fora da blogosfera e transportada, um pouco acriticamente, para o seu interior, assolou o mundo dos blogues. Para além de duplamente pertinente, na verdade além da importância da mesma estamos num (Meta) Blogue que pretendendo ser um "respigador" de discursos sobre a blogosfera tenderá inevitavelmente para um dia propôr o seu próprio "organizador" dos discursos, esta entrada tem também a valia de, em resposta ao mote "O que procuro eu de um blogue?" dar conta de uma determinada perspectiva, a do autor, de observar o mundo dos blogues.
AUTOR: Alexandre Alexandre
DATA: 12 de Outubro de 2003
LOCAL: umblogsobrekleist
"BLOG IS A BLOG IS A BLOG: Todos sabemos que, nos últimos meses, a magnitude que o fenómeno dos blogs atingiu levou a comunicação social (e em especial a imprensa escrita) a interessar-se pelo assunto, e a desmultiplicar-se em reportagens. Nada disso é surpreendente, nada disso se me afigura lamentável ou negativo. O que me confrange, isso sim, é constatar a maneira como as categorias e prioridades criadas e promovidas pela imprensa clássica quando fala de blogs se reflectem, mal sofrendo crítica ou cepticismo, nos próprios debates entre blogs. Nada melhor do que um exemplo para esclarecer onde pretendo chegar. Antes do verão, muito se discutiu até que ponto o fenómeno dos blogs sobreviveria às férias grandes, até que ponto a desenfreada expansão que se verificou na primeira metade do ano continuaria a ocorrer quando chegassem Setembro, as primeiras chuvas e o equinócio. Não é este um debate que careça de legitimidade; mas é pena que tenha sido conduzido na óptica de um "fenómeno blog" criado e nutrido pelos jornais, essencialmente a partir do momento em que alguns nomes sonantes "legitimaram" a blogosfera. Era desse "fenómeno blog", moldado aos cânones jornalísticos, convertido ao espaço noticioso com a benevolência interessada que se reserva a um ovino tresmalhado, que se discutia a sobrevivência. E, se esta questão é importante a partir do momento em que se reduzem os blogs a estereótipos (espaço de intervenção, forte ou moderadamente politizado, meio de divulgação de opiniões pessoais, clone de crónica jornalística), bem menos o será se tivermos em conta a espantosa diversidade do fenómeno, e se nos resignarmos à impossibilidade manifesta de se identificarem denominadores comuns. A blogosfera é uma constelação de partes que resistem a ser adicionadas ou amalgamadas. Para além da magreza lacónica da sua definição, um blog é uma ferramenta com um número virtualmente infinito de aplicações
O que procuro eu num blog? Acima de tudo, isto: a criação de um modo de estar e de intervir próprio, que reflicta, afinal de contas, o carácter único de uma personalidade. Regra geral, pouco interesse me despertam blogs que pouco mais sejam do que repositórios de opiniões e desabafos. Procurar a originalidade a todo o custo pode não ser algo recomendável, mas sou particularmente seduzido por aqueles espaços onde sinto existir uma componente forte de ousadia formal, mas também de simulação (a transparência absoluta, em 99 % dos casos, horroriza-me). É talvez por isso que tendo a dar preferência aos blogs pessoais em detrimento dos colectivos, se bem que também existam alguns excelentes, escritos por um número de colaboradores apreciável (Aba de Heisenberg, Janela Indiscreta, País Relativo...).
O que procuro eu num blog? Talvez pouco mais ou pouco menos do que procuro numa pessoa com quem trave conhecimento. Diz-se frequentemente que «Viver é mais importante do que blogar», ou «Há coisas mais importantes na vida do que os blogs», ou variantes destas máximas. Por detrás da robusta evidência, parece ocultar-se a convicção de que as horas passadas frente ao computador, a teclar textos para o ciberespaço, são excrescências da "verdadeira vida"; na melhor das hipóteses, um luxo; na pior, uma tara. Eu creio que blogar é uma parte da vida, cuja importância relativa variará, como é natural, de indivíduo para indivíduo. Sendo uma parte da vida, por definição, faz parte de um combate quotidiano pela felicidade.
O que procuro eu num blog? Partilhar as palavras de alguém que posso não conhecer, mas que me suscita estima, admiração ou interesse; coleccionar instantâneos dessa luta pela felicidade, a única que vale a pena; espantar-me com as declinações que tais esforços admitem, de pessoa para pessoa, de dia para dia. Expor-me, em suma, à inteligência e à sensibilidade alheias em flagrante delito de interacção com o Mundo das coisas e dos factos.
O que eu procuro num blog é aquilo que eu aprecio numa pessoa, na vida "real".
O que os blogs nos trouxeram foi um meio. Uma resposta à pergunta "como agir?". De hoje para amanhã, os blogs podem deixar de ser mencionados noutros lugares; a moda pode passar. Mas o meio existe; e a única questão que me interessa é saber se continuarão a existir pessoas que dele se sirvam."