Retomando um assunto qua já abordara num texto anterior, Paulo Querido [(o vento lá fora)] desenvolve alguns dos tópicos que aflorara previamente.
Autor: Paulo Querido
Título: «O Que Falta à Blogosfera»Meio/Local: Blogue, (o vento lá fora)
Data: 15 de Novembro de 2003
Tema: A Blogosfera Portuguesa
Palavras-Chave: blogosfera, rede.
Língua: Português
País de Origem: Portugal
O que falta à blogosfera
Ao contrário do que se pensou e escreveu (eu também escrevi), a entrada do Abrupto e do Aviz para a blogosfera não trouxe afinal a emancipação dessa mesma blogosfera. É inegável que a veio enriquecer do ponto de vista qualitativo (trata-se de dois autores de bom nível), é inegável que mediatizou os blogs (o que também tem efeitos perversos, como agora se nota), aparentemente chamaram mais autores -- e digo aparentemente porque hoje tenho dúvidas sobre o que teria acontecido SEM eles.
Tais blogs "de referência" têm tido até sobretudo um efeito pernicioso sobre a blogsfera, sobre a rede, contribuindo para a "adormecer" e cristalizar (falo disso mais adiante). Sem qualquer tipo de desprimor para os respectivos autores, que prezo e admiro; o assunto não passa directamente por eles.
Ao contrário do que temos por adquirido, a sua vinda não foi o rastilho para a blogsfera se assumir como uma rede alternativa de informação e opinião. Na verdade, a blogsfera não existe: o que existe são pequenos, muito pequenos círculos de blogs que se referenciam uns aos outros horizontalmente, havendo muito poucos blogs de um círculo que sejam referenciados noutro, verticalmente. As excepções verticais contam-se pelos dedos: além do Abrupto, é o Pedro, o João e... hum? não me ocorre agora mais nenhum.
As razões disto são complexas e não se ficam pelos blogs. Há dois factores externos que MUITO contribuem para a não-existência de uma rede de informação/opinião em Português. Em duas palavras, são eles a absoluta e absurda ignorância dos media portugueses face às novas tecnologias de interligação digital e a ausência de um portal nacional de referenciação, como o Blogdex ou o Technorati.
[Os meus esforços no weblog.com.pt são claramente insuficientes: nem se faz por hobby, nem se faz sem recurso a programadores competentes (eu não sou programador, quanto mais competente), nem se faz sem uma estratégia pensada por uma equipa (recordo que o weblog.com.pt técnica e estrategicamente é... eu, uma só pessoa, manifestamente pouco para a ambição de um tal projecto, estou condenado a colocar as dúvidas ao espelho e a obter respostas de algum dos meus heterónimos... um processo fastidioso e frustrante).]
Um exemplo actual: os acontecimentos com os jornalistas portugueses em funções no Iraque. Se quisermos mergulhar no assunto temos de andar a vasculhar tanto os sites informativos como os blogs, um por um. Uma perda de tempo incompatível com os actuais ritmos de assimilação da realidade. Não há um centro nevrálgico onde me possa dirigir para ver logo o peso relativo do assunto -- que é imenso nestes dias, penso aliás que será o tema dominante na arena mediática global (Imprensa e blogs) desde sexta-feira passada até provavelmente domingo.
Mas como posso eu provar (ou desmentir) esta minha teoria? Não tenho ferramentas. Não há rede. Existem apenas pontos suspensos no espaço digital. Demasiados pontos para poderem, em tempo útil, ser verificados um por um. Não temos forma de avaliar que temas dominam essa mesma arena (excepto, naturalmente, a vasculhação manual, a consulta de centenas de páginas para apurar os links e depois redigir uma página sobre o tema; impensável). E nisso a blogosfera está atrasada. É por isso que digo que não há uma blogosfera: há um conjunto alargado de blogs mas não estão em rede.
Bastava que a TSF, o Público, a SIC e o DN (para citar apenas quatro) tivessem índices RSS/XML/RDF e que os blogueiros tivessem crescido um pouco tecnicamente (era a isso que me referia quando falava de amadurecimento no outro texto) para que, calmamente, com um único clique eu poder ter uma ideia muito clara do peso relativo do tema na actualidade informativa/opinativa de Portugal.
Voltando aos blogs "de referência" e aos seus efeitos perniciosos. Por um lado, cristalizaram o who's who. A par do Gato Fedorento, do Pipi e dos Marretas, dominam a lista dos inbound links. Um fenómeno já estudado, aliás. Neste momento há pessoas (a começar pelo autor do Technorati e passando por outros membros proeminentes da blogosphere) a pensar o assunto e em formas de quebrar o cristal permitindo o acesso de novos blogs aos tops.
Por outro, na ausência de contrapontos (como o sistema de avaliação em contínuo dos temas predominantes que já falei acima) a tendência dos leitores é para considerarem os "de referência" como autoridades opinativas em toda e qualquer matéria. A realidade é aquilo de que eles decidirem falar. O efeito disto nas massas -- e digo massas porque há evidentemente gente que não lê blogs da mesma forma que consome jornais e televisão, mas a maioria tem dos blogs essa visão estreita PRECISAMENTE POR CAUSA DO MEDIATISMO DOS BLOGS DE REFERÊNCIA -- é absolutamente contrário ao esperado (desejável?) de um meio dito democrático.
A democraticidade de acesso que os blogs nos trouxeram permite efectivamente a emissão de MAIS correntes de opinião do que as disponíveis na esfera mediática tout court (sem blogs, só Imprensa), onde não passam de três ou quatro em perfeita união com o espectro político-partidário e a este subordinadas. Na blogosfera há dezenas de correntes disponíveis.
Porém, e paradoxalmente, isto não veio impedir que continuemos por enquanto a viver uma ditadura opinativa reflexa na blogsfera. A ausência de circuitos que liguem os nós da rede obriga os leitores a dirigirem-se directamente aos nós -- e tendencialmente os nós proeminentes obtém mais visibilidade.
Próximos capítulos: a tentativa de construção de rede dos "de direita" e porque falhou quase rotundamente; o caso espanhol; os blogs de escritores.
PS: este texto (e as sequelas que hão-de vir) surge inspirado / encorajado pelos comentários suscitados pelo meu desabafo aqui. Outro texto recomendado para a compreensão do assunto é Blogs: o poder ao indivíduo, publicado inicialmente no Expresso.
Publicado por socioblogue em novembro 16, 2003 05:07 AMMas se a intenção é arranjar uma alternativa opinativa à imprensa escrita, medi-la a cada momento e com isso quantificar a sensibilidade dos autores sobre um determinado assunto, tudo o que há há fazer é criar um fórum de blogs sobre cada matéria proposta; nada que se não possa fazer já. Haja servidores e espaço neles.
Sociológicamente será interessante perceber o peso que cada assunto tem sobre os autores "alternativos" que por aqui escrevem, mas isso também encerra alguns perigos.
Apesar de andar nisto há pouco tempo, mas dos muitos blogs que já li, posso concluir desde já 2 coisas:
1 - aqui se reflecte perfeitamente o país: 10% têm assunto e o restante também não.
2 - esta coisa do controle de peso é complicado até nos blogs. A quem interessa, verdadeiramente, controlar o peso que um determinado assunto tem na opinião pública? À classe política, que controla muitos dos media e à alta - finança, que controla os restantes... e a classe política.
A esfera blogueira acaba por não ter muito assunto, porque quem lê também opina, de modo que ninguém tende a dar muita importancia àquilo que o outro diz, preocupando-se mais em que o outro leia aquilo que cada um escreve. Em portugal também sempre foi mais importante falar do que em ouvir. Por isso é que estamos aqui, neste patamar, 30 kms atrás de um comboio que nos ganha distância cada dia que passa.
Portanto, enquanto isto for um diálogo de surdos, a coisa vale o que vale.
E é bem melhor que nada, mesmo assim.
Caro João Tilly: veja por favor www.blogdex.net. É de uma ferramenta dessas que falo.
Afixado por: Paulo em novembro 17, 2003 03:39 AM